Mind the gap, diz a voz do metropolitano. Em inglês chama-se tube, mas não são as questões semânticas que me enchem o pensar. É aquela voz… É a mulher por detrás daquela voz. Take care of your belongings, diz ela. E eu, básico instinto, passo as mãos pelo corpo, tocando-me. Dominatrix ius imperii! Em seguida, cala-se. Não há chicote, nem sequer alguma vez a vi. Mas esta ausência, este jogo de escondidas castiga-me mais que qualquer chibatada.
Fico a imaginá-la: uma bela vista oriental, de cabelos ruivos e cheiro a laranjeiras. Corre por entre campos de olivais, parando lá no alto, com os moinhos por trás, para tomar novo fôlego. Nua de calor, refresca-se no arroio restaurador que cruza o mapa. Um anjo!
A escrita idílica não tem lugar nesta toca, foi só um momento de imaginação encadeada que despachou logo uma dúzia de estações. Felizmente estava nua! Mas volte-se à sedução da carne, nesta dança a dois:
Paciente, sabe jogar o jogo. Não respeita o interregno A3, mas as viagens aqui são curtas e tudo se passa muito mais rápido. O timing é perfeito: vou já eu distraído a pensar se serei urso ou não, quando ela me assalta o ouvido. Devido à greve geral, informamos que amanhã o metro se encontrará encerrado. Sabendo que estas coisas vivem de oportunidade e percebendo que não a irei ver no dia seguinte, decido procurá-la nesse instante. Num sussurro, indica-me o caminho: Próxima estação, Baixa-Chiado, em tom de convite para encontro. E eu, pau, saio e espero… E espero… E espero… Ao 4º comboio ouço-a passar, num high tease, cancan burlesco que me leva a apanhar o próximo para apenas mais uma verde.
Acompanhou-me do Técnico ao Cais do Sodré, passando pelo Intendente. Sabe o que tem e sabe usá-lo. É esse o poderio do mulherio. E todas cobram por isso…
Mas esta é puta, de certeza!
Gonçalo Fortes





4 de Janeiro, 2012 at 10:07
Agora quem tira o chapéu sou eu! Tubuladura é mesmo muito bom…Goose bumps! (até me envergonhei da minha brejeirice!)
Tremendously well done!
5 de Janeiro, 2012 at 00:55
Que é isso de “brejeirice”? Só conheço palavrão com estilo, literaturas urbanas e brutidades eruditas. Foi um caso de vida a imitar a arte, o teu.
Gostaste do título? Também achei que sim.
Thank you!
5 de Janeiro, 2012 at 11:33
Não desfazendo do conteúdo do post, o título roça assim a perfeição!
E acrescento, uns palavrões aqui, eram sagrados! (mas isso é capaz de ser a minha brejeirice a falar…)
5 de Janeiro, 2012 at 21:43
Tenta-me, tenta-me…
5 de Janeiro, 2012 at 22:33
Do que é que estás à espera?