Monthly Archives: Abril 2011

O Contrato da Estrela Cadente

Estava velho, cansado, doíam-lhe os ossos e a vida. Afogava as manhãs em papas de aveia, segurando nas artrites uma velha colher debruada. No reflexo concavo desta, espreitavam uns olhos já gastos de nevoeiro, que escondiam borboletas roxas.

Fora feliz antes, vermelho, mas naquele dia as papas não tinham sabor. Trapo, arrastou-se à procura da Primavera, do sal da vida…

Ao mesmo tempo que o velho saía, a menina amarela partia o atacador. Diria o acaso que não se encontrariam, mas trocaram-lhe as voltas. Porque foi às voltas, num rodopio de braços abertos, que o atacador se partiu e o acaso deixou de o ser.

Caída, observou a luz do mundo em silêncio intermitente, quebrado apenas pelo peito que respirava. Era quente, brilhante, paz, era ficar ali. Mas os atacadores não duram para sempre…

Descalça, a menina tacteava o caminho por entre folhas e ramos, saltos e ziguezagues. Com a bengala, o velho desviava as pedras que defendiam o seu lugar conquistado.

Quando finalmente o viu, fixou-se no seu cabelo branco, fios que podiam atar… Quando finalmente a viu, num recorte de céu azul, sentiu as lágrimas do sal que encontrou…

Com o vestido manchado de sonhos e sangue, a menina pergunta:

– Porque choras?

– Já não dói mais.

De vermelho a azul, passou por todas as cores de uma estrela, desde que nasce até Supernova. Bonito nome para Morte…

Gonçalo Fortes

Anúncios

Devia chamar-se Paulada na Cabeça

Acabadinho de chegar do Sucker Punch, a última grande malha do realizador Zack Snyder. Sendo grande fã dos anteriores projectos dele, 300 e Watchmen, era obrigatório ver este.

Mas já dizia a minha avó a proverbial sabedoria de que cada macaco no seu galho. É que desta vez os génios da pena Frank Miller e Alan Moore não cuspiram tinta, sendo o argumento uma espécie de Alice no País das Maravilhas em esteróides, músculo sem conteúdo. Há quem diga que isso já foi feito, mas não quero agora aqui falar daquele que foi o meu divórcio com o Tim Burton.

Esta Alice usa katana, mini-saia estilo Navegante da Lua e até deve ter dentro do bolso, para dar sorte, uma pata arrancada à bruta ao Coelho Branco. Coxo, já tem desculpa para chegar atrasado a todo o lado.

Esta descrição convencia-me, até porque é minha, e se adicionarmos aqui dragões, samurais, battlemechs e uma boa dose das Alicettes, 5 bailarinas de cancan semi-nuas que acompanham a Alice para todo o lado, parece o sonho de qualquer geek. E deixem-me fazer jus às raparigas, que a escolha da palavra “boa” ali atrás não foi por acaso.

Mas, obrigado outra vez avozinha, nem tudo o que reluz é ouro: ou não se passa nada no filme, ou passa uma misturada em demasia, cheia de elementos gratuitos.

E não me interpretem mal, gosto tanto de mulheres semi-nuas como o próximo, ou talvez até mais. Apesar de saber há muito tempo que o sexo mais belo é também o mais forte, e pobre do homem que ainda acha o contrário, há qualquer coisa de excitante quando uma cara inocente com um vermelho Bourjois nos lábios se coloca em posições de força. Como as Charlie’s Angels ou a Margaret Thatcher.

Mas também posso ter descrito sem querer um qualquer filme pornográfico…

 

Gonçalo Fortes


Liberdade é isto

Gosto disto das Notas do Facebook.

Sempre me senti um bocadinho constrangido, limitado pelos 420 caracteres. Quase como espreguiçar-me dentro de uma máquina de lavar roupa, um gajo estica uma perna e inicia sem querer o ciclo da centrifugação.

Mas aqui não, aqui não há preguiça, está-se à vontadinha, é espreguiçar a sério.

Por exemplo: se quisermos insultar alguém nos 420, contenção que impõem, teremos de optar por algo como “boi”, “cão” ou até, arriscando na loucura das 4 letras, “asno”. Alguém criou um dia esta convenção de que atirar nomes de animais dóceis, comestíveis ou trabalhadores é um insulto. Os restantes 417 ou 416 são para deixar em branco, pausa dramática carregada de significado, para absorver o insulto em toda a sua plenitude.

Sem travão, aqui podemos soltar o animal da verborreia maldizente e elaborar palavras como “energúmeno”, “mentecapto” ou até “putaquepariuestegajoaiocaralhoqueofodavoulheaoscornosbardamerda” e ficar a ler com demora aquilo que se escreveu. Ahhhhh de satisfação!

Apesar de achar que a página do Fernando Nobre não concorda comigo, não apenas de insultos vive o Facebook. Para além das Cantigas de Escárnio e Maldizer, há também as Cantigas de Amor e Cantigas de Amigo, resumos medievos do que a malta escreve. E também aqui as Notas ajudam: quando alguém quer demonstrar que a felicidade ou o amor andam no ar, pode soltar um valente “Supercalifragilisticexpialidocious” sem medo de acabar as letras. Não deixa dúvidas e a Julie Andrews agradece.

Eu largo um, agora que descobri isto: “Supercalifragilisticexpialidocious”! Pronto, já disse.

A completo despropósito, e só porque posso, aproveito também para esclarecer um dilema que ouço gerar debate há muitos anos: a maior palavra da língua portuguesa não é “Anticonstitucionalissimamente”. É, sim, “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, que define alguém que contraiu uma doença pulmonar por respirar cinzar vulcânicas. Suspeito que dizer a palavra de uma assentada em voz alta também deve causar problemas nos pulmões, não arrisquei.

Fica o desabafo das palavras largas. Mesmo a tempo do final do ciclo da centrifugação…

 

Gonçalo Fortes