Liberdade é isto

Gosto disto das Notas do Facebook.

Sempre me senti um bocadinho constrangido, limitado pelos 420 caracteres. Quase como espreguiçar-me dentro de uma máquina de lavar roupa, um gajo estica uma perna e inicia sem querer o ciclo da centrifugação.

Mas aqui não, aqui não há preguiça, está-se à vontadinha, é espreguiçar a sério.

Por exemplo: se quisermos insultar alguém nos 420, contenção que impõem, teremos de optar por algo como “boi”, “cão” ou até, arriscando na loucura das 4 letras, “asno”. Alguém criou um dia esta convenção de que atirar nomes de animais dóceis, comestíveis ou trabalhadores é um insulto. Os restantes 417 ou 416 são para deixar em branco, pausa dramática carregada de significado, para absorver o insulto em toda a sua plenitude.

Sem travão, aqui podemos soltar o animal da verborreia maldizente e elaborar palavras como “energúmeno”, “mentecapto” ou até “putaquepariuestegajoaiocaralhoqueofodavoulheaoscornosbardamerda” e ficar a ler com demora aquilo que se escreveu. Ahhhhh de satisfação!

Apesar de achar que a página do Fernando Nobre não concorda comigo, não apenas de insultos vive o Facebook. Para além das Cantigas de Escárnio e Maldizer, há também as Cantigas de Amor e Cantigas de Amigo, resumos medievos do que a malta escreve. E também aqui as Notas ajudam: quando alguém quer demonstrar que a felicidade ou o amor andam no ar, pode soltar um valente “Supercalifragilisticexpialidocious” sem medo de acabar as letras. Não deixa dúvidas e a Julie Andrews agradece.

Eu largo um, agora que descobri isto: “Supercalifragilisticexpialidocious”! Pronto, já disse.

A completo despropósito, e só porque posso, aproveito também para esclarecer um dilema que ouço gerar debate há muitos anos: a maior palavra da língua portuguesa não é “Anticonstitucionalissimamente”. É, sim, “pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, que define alguém que contraiu uma doença pulmonar por respirar cinzar vulcânicas. Suspeito que dizer a palavra de uma assentada em voz alta também deve causar problemas nos pulmões, não arrisquei.

Fica o desabafo das palavras largas. Mesmo a tempo do final do ciclo da centrifugação…

 

Gonçalo Fortes

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