Monthly Archives: Maio 2011

Maldição

A propósito da seguinte frase de Dulce Maria Cardoso: “O sonho de qualquer escritor é ser lido. Se disser o contrário tem um problema grave. Escreve e publica para comunicar. Tenho para mim que um livro morre nas mãos de um escritor quando o acaba e é nas mãos dos leitores que ressuscita e nesse processo há sempre um novo livro.”

O escritor ajudou-o a nascer. Cabeça-abaixo, deu-lhe a palmada que o tirou da agonia infinita antes do primeiro fôlego.

Este não foi um parto sem dor. O pequeno monstro impôs-se, secando a caneta-mãe, deixando-a sem gota. O escritor beijou-a uma última vez, fechou-lhe os olhos em despedida e olhou, pai assustado, para a sua progénia, para a vida que surgia agora em troca.

Pelo amor do sangue, alimentou-o para depois o segurar num bolço de ombros, arroto de letras. Orgulhoso porque já esquecido, sorriu com os seus primeiros passos, a primeira queda esfolou-lhe a capa.

Foi à escola, conheceu moças e desflorou-se, ou desfolhou-se, cresceu…

Mas o segredo esteve sempre lá. Escondido. Paciente. À espera do momento oportuno. O segredo do livro-zombie!

Sabem como os zombies, teimosos que são, se levantam – uma e outra vez, mais perna ou menos braço – por muito que lhes rebentem os cornos?

Assim é o menino, agora homem, livro-zombie.

Solto, ataca. Vive e ganha ímpeto quando é lido. Aprisiona o leitor e fá-lo sofrer, dentes cravados no coração até morrer na última página.

Não será maldade, talvez natureza, como o escorpião. É incompreendido por vezes e, sozinho ou narciso, tem ânsia de comunicar, de ser lido por dentro. De contar verdades ou bazófias, precisa que o (re)conheçam.

O leitor defende-se e luta. Marca páginas, dobra cantos, desfia o cordel marcador. Nada detém o livro-zombie, habituado que está a estes espólios da guerra. Com a sua canção maldita, sibila apaixonante, devora-lhe desta vez o cérebro, é preciso recuperar do último tiro nos cornos.

É uma troca justa, o leitor ganha um novo universo ou um novo sentimento, um novo pensamento ou uma nova fantasia. Pois não será o sonho cérebro?

Falta-lhe sempre corpo, sempre bocados por preencher. E continua o ciclo da simbiose. O ciclo de ler e ser lido. Cativando maldosamente o leitor seguinte, aquele que vem após o anterior. Ganhando ânimo, mistério, amor ou terror. Novo prazer, mesmo final.

E morre. E nasce. E remorre. E renasce!

Porque escrevo?

Escrevo para secar canetas. Morte-Parto.

Gonçalo Fortes

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Peregrinação à Fátima

Chegam de todos os lados, com ganas de entrar Nela. É um desejo primário que os move, abandonaram tudo para A procurar.

Ela aguarda-os, paciente mas autoritária e, portas abertas, recebe um após outro, após outro, após outro… Apesar da pressa em se aliviarem, são submissos na chegada, lavando-se, preparando-se para o ritual.

Dominante, Ela dita as regras, coloca-os abaixo, no seu lugar. Prostra-os, cajados usados e postos de lado.

É preciso criar ambiente, Diz. Acendam umas velas, bebamos o vinho com os lábios, provemos o corpo com a língua.

As mãos tocam bustos lisos em carícias demoradas e alguns preliminares beijam pés.

Cumprindo promessas, entregam-se ao prazer agridoce, gritos e lágrimas. A carne arrasta-se pelo chão, eles com Ela, elas com Ela também, Ela não tem pudores, a todos recebe, todos Nela entram.

E Nela vêm largar tudo o que traziam cá dentro: o esperma da alma, a ejaculação do espírito.

Correio da Manhã, 13 de Maio de 2011, Secção de Classificados: Fátinha, 2026 anos, convívio sem limites.

Gonçalo Fortes


Homenagem aos Contos do Gin-Tonic

Blurp…

Gonçalo Fortes


Memories are made of this (ou Quando tens um martelo na mão, tudo te parece um prego)

Aborreço-me quando Hollywood rouba coisas que são minhas. E não me estou a referir à Scarlett Johansson, Natalie Portman ou Megan Fox (com um “x” apenas, se for com dois, estamos a falar de um assunto completamente diferente), mas sim aos meus heróis de infância ou livros que me inspiraram.

É aquela negação das modas ou a protecção do geek. Só que em vez de me enfiarem as cuecas na cabeça, espalham-nas, já usadas, a quem não as sente com paixão (e não, continuo a não estar a falar da outra com os dois “xx”).

Quanto às modas, eu não consigo sequer ver que os meus ténis são bicolores, dizem que têm lá prateado à mistura, mas eu chamo-lhe apenas verde, o que justifica mais ou menos que também não sou muito trendy.

Tudo razões para o aborrecimento de Hollywood. Continuo a rir-me sozinho na maior parte do filme, um certo prazer secreto em saber coisas, mas este não se sobrepôe àquele. E como todos temos um bocadinho de S&M, ainda venho para aqui fazer publicidade…

O filme é muito bom, Kenneth Branagh volta a confirmar-se como um dos meus realizadores preferidos e até trouxe uns óculos 3D para casa. Se alguém quiser sentir um bocadinho do mundo para onde eu vou quando fumo coisas ou dos valores que me fizeram como homem (há frases que simplesmente se impõem, temos que as deixar ir!), vá ver o Thor. Até têm a desculpa que é mitologia Norse, caso achem que a banda desenhada é coisa para crianças. Faltam lá a Encantor, Hela ou Balder, o Bravo, e o Volstagg fez dieta a mais, mas quem é que está a contar?

“Whosoever holds this hammer, if he be worthy, shall possess the power of Thor.”

Acho que é tempo de voltar a sentir o toque frio do aço nos calos das mãos. Ou as verdascas no resto do corpo…

Gonçalo Fortes


A Caminhada da Vergonha

O rímel dos olhos é agora um borrão, formando uma máscara que não a esconde da vergonha.

Vergonha que não sente, simplesmente as noites são como a vida, curtas demais, e não podendo viajar sem sair do lugar, é preciso fazer a caminhada.

O rumo que o álcool impõe a cada passo leva-a a parar de vez em quando, rindo-se sozinha das memórias de traições passadas ou apenas daquele copo verde que, de um trago, a queimou. Estaria a arder?

Não passou muito tempo desde que se entregou ao prazer. Testou limites, sexos e suores ou trocou a audição pela música…

Segredo guardado durante a noite, surgem agora os óculos escuros, uma fusão de manto de invisibilidade com sinal de néon, há dualidades tramadas. Arrogantes na protecção, deixam espreitar o buraco de cigarro, as nódoas no casaco que foi pisado, os rasgões feitos por aquele homem desconhecido… O copo que ainda segura na mão direita nunca irá ser bebido, fugaz companheiro de âmbar, em breve desprezado numa rua aleatória. E mais um rir sozinha…

É preciso fazer a caminhada, é a purga que horas mais tarde nos faz não respeitar as promessas de Nunca mais! e repetir tudo de novo.

Porque não é de vergonha, e todos a fazemos. Só usei uma mulher porque gosto dos borrões de rímel!

Gonçalo Fortes