A Caminhada da Vergonha

O rímel dos olhos é agora um borrão, formando uma máscara que não a esconde da vergonha.

Vergonha que não sente, simplesmente as noites são como a vida, curtas demais, e não podendo viajar sem sair do lugar, é preciso fazer a caminhada.

O rumo que o álcool impõe a cada passo leva-a a parar de vez em quando, rindo-se sozinha das memórias de traições passadas ou apenas daquele copo verde que, de um trago, a queimou. Estaria a arder?

Não passou muito tempo desde que se entregou ao prazer. Testou limites, sexos e suores ou trocou a audição pela música…

Segredo guardado durante a noite, surgem agora os óculos escuros, uma fusão de manto de invisibilidade com sinal de néon, há dualidades tramadas. Arrogantes na protecção, deixam espreitar o buraco de cigarro, as nódoas no casaco que foi pisado, os rasgões feitos por aquele homem desconhecido… O copo que ainda segura na mão direita nunca irá ser bebido, fugaz companheiro de âmbar, em breve desprezado numa rua aleatória. E mais um rir sozinha…

É preciso fazer a caminhada, é a purga que horas mais tarde nos faz não respeitar as promessas de Nunca mais! e repetir tudo de novo.

Porque não é de vergonha, e todos a fazemos. Só usei uma mulher porque gosto dos borrões de rímel!

Gonçalo Fortes

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