Monthly Archives: Setembro 2011

Vampiros Karatekas de Marte

Sempre achei fascinante: um gajo, quando se torna vampiro, passa automaticamente a saber lutar Karate. E é que nem avisa ninguém! Houve aquele, do filme, simpático, que mesmo sem se tornar vampiro, disse “I know Kung Fu” antes de desatar ao pontapé. Mas estes não, levas logo com um triplo rotativo na tromba e as perguntas ficam para depois.

Se calhar é porque Kung Fu não é Karate. Ou se calhar é porque os dentes, crescidos que ficam, impedem que se perceba alguma coisa. Eles tentam falar, mas só se babam.

E isto não se passa só para os lados da Transilvânia, Praga ou até Sodoma (aqui foram umas vampiras lésbicas, não sei se aprenderam Karate, mas também não interessa – o nome Vampiras Lésbicas de Sodoma não me deixa pensar em mais nada), há muitos casos parecidos na sociedade portuguesa: o pessoal que vê um café ou restaurante em trespasse e passa automaticamente a achar que tem capacidade para gerir aquilo.

“Oh Maria, nã sabemos fazer ponta de corno e fomos um bocado roubados nas boas manêras e no português correcto. Ali a tasca do Zé Manel fechou por insolvência… Ai insolvência nã, quê nã sê o qué isso… Falência é que foi. Saberes da hotelaria nem vê-los, mas a gente cá s’amanha. Ainda vamos insolvenciar… Ai insolvenciar nã, quê nã sê o qué isso… fazer falir as 20 tascas que tã lá ó lado, porque a gente é que sabe, se estes fecharam é porque sã parvos. Tu fazes a receita da feijoada de entrecosto da tu mãe, mas sem roeres as unhas lá pa dentro, han! Pomos a nossa filha de 10 anos a servir cafés e eu fico o dia todo ó balcão a bebê mines. Ah! Ainda dizem que é a crise!”

Nós, pessoas que às vezes são clientes, entramos incautos. O estômago já rói e a feijoada da sogra até nem parece muito mal, escrita na toalha de papel pendurada à porta. Até se dizer Boa tarde! parece tudo pacífico, mas quando nos respondem levamos logo com a falta dos dentes, aqui não há desculpa para o babar ou para não se perceber a articulação idiomática. Ou se calhar atendem-nos de boca cheia… Dedos que se enterram na comida, mãos que coçam dentro das calças e hálitos a bagaço que podiam detonar uma bomba de hidrogénio. E não é que o raio da feijoada tem mesmo uma unha?

Na maior parte destes casos, fico com uma tremenda vontade de desburocratizar o livro de reclamações. Alguém que me morda o pescoço que eu resolvo já o assunto!

Gonçalo Fortes

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À prova de amor

Tentara esquecê-la, sem sucesso. Estava marcado por dentro. Boca muito aberta, enfiou a mão o mais fundo que pôde, tentando encontrar o que dela restava. O vómito só lhe trouxe mais sofrimento. Enquanto se libertava da bílis, pensava no quanto ela tinha mau fígado, em todas as brigas que sopravam vida à afinal vidinha. Tinha um talento inato para transformar os momentos maus em bons. Mas coisas boas eram o que não queria lembrar. Menticida, decidiu afogar o cérebro em esquecimento.

Não conseguiu tentar uma solução de cada vez. A noite promove a união dos vícios e deu consigo a viver como um deus louco: o álcool foi obrigatório, é sinónimo do próprio oblívio. Copos sempre mais fortes em gradações cada vez mais fundas, sorvia quando sozinho, emborcava quando acompanhado. Função de solvente, por vezes segurava uma ou outra substância exótica, drogas que sorriam por fora e morriam por dentro. Desde que matassem a memória… Partilhava-as com mulheres aleatórias, que levava para uma qualquer casa de banho pública ou para um quarto de motel. As mesmas que antes emborcaram, embocavam agora. Não as olhava de frente, não fosse fixar-lhes o rosto. Pedia que o azorragassem, na esperança de que a dor física o arrancasse da alma, no regresso triunfal é sempre preciso verter um pouco de sangue… Tão vazio como no início da noite, amanhecia a caminho de casa ainda com a braguilha aberta. Era um cocktail de solidão!

“Deus anda a cagar-me em cima.” – pensou – “A vida não muda, só ficamos mais confortáveis com a nossa própria miséria. É escatológico nos seus dois significados!”

Mas o álcool dá ressaca, o tabaco faz catarro e as mulheres têm DSTs. De certeza que existem outras couraças anti-amor! O Tartaruga Genial tinha uma carapaça de tartaruga e nunca o vi apaixonado, estava sempre a rebarbar gajas boas. Será que funciona?

Gonçalo Fortes


O último Y

Imagine-se, de olhos fechados ou não, que sou o último homem à face da Terra. Há certos botões que ligam e desligam a imaginação e os olhos são um deles.  E já que é para imaginar, eu ajudo a compôr melhor a imagem. Peguemos no lugar-comum do cenário pós-apocalíptico: o Sol expandiu-se e o planeta secou. A falta de água levou a guerras, motins e pilhagens, com as devidas mortes e destruição associadas. Eu encontro-me no topo de uma dessas pilhas de destroços, com uns andrajos no corpo, mas um cachecol-turbante estiloso que só me deixa entrever os olhos. Ah e tenho um cão…

Porque estamos a imaginar, não nos dispersemos e ignoremos as causas que levaram a que eu fosse o último homem à face da Terra. Sou mesmo.

Não será então difícil aceitar que, por líbido, relógio biológico ou apenas – menos nobre e mais gráfico – enterobius vermicularis, se assista a uma inversão de género no processo da sedução. É a Lei da Oferta e da Procura: se a quantidade diminui, o valor aumenta. Sendo eu a oferta valorizada. Para perceberem a procura, acrescentemos à moldura mental uma montanha de mulheres a subir os destroços em atropelos: todas me querem!

Sim, porque ficou por dizer ali atrás que o mulherio está cá todo.  Sou o último homem com “h” pequeno, o último cromossoma Y. E digo mulherio apenas para massificar, tenho todo o respeito pelo sexo mais belo…

É esse respeito, esse cavalheirismo que me leva a ser ainda um conservador, a aceitar a abordagem tradicional, em que o homem demonstra que é homem simplesmente por ter a coragem de conhecer um novo cromossoma X. Ele vê a mulher. Daquelas com uma beleza fascista, fica-se cego só de olhar para ela. Uma espécie de Olho de Sauron com mini-saia.  Daquelas que cheiram a beijo e não se importam de falar de sexo.  Bélico, mas inseguro – cada vez é sempre a primeira – avança. Penteado, perfumado e bem-falante,  ou desgrenhado, cheiro a suor e ridículo, vale tudo na aproximação, no amor e na guerra. E às vezes confunde-se qual é qual…

É, na maior parte dos casos, um esforço unilateral. A mulher não ajuda o homem e fá-lo perder novamente os testículos recém-conquistados. E talvez até quisesse ajudar… Mas abusa de toda a sua graça feminina para pôr travão no avanço, açaime na conversa e lastro na auto-estima. O homem cai de joelhos mais depressa que uma prostituta do Técnico, perdendo sempre uns pingos de Casanova pelo chão.

Sendo eu o último homem da Terra, posso preguiçar um bocadinho e provocar esse conflito interior no estrogénio: todas me querem! E eu só tenho de esperar, no cimo do monte de destroços…

Gosto das da líbido. Ninfetas, têm vontade, sedução e batom rouge. E não me refiro à capital do Louisiana. É mesmo a algo chamado desejo, como o eléctrico.

O relógio biológico faz falta, é preciso não deixar acabar a espécie. Se o Adão cromossomal-Y conseguiu produzir todos os ninfantes… perdão, infantes do passado, eu também consigo. E não levantemos questões incestuosas aqui. A Igreja Católica também não o fez.

Finalmente – menos nobre e mais gráfico – fujo das enterobius vermicularis. Já em fase de ninfómanas, perseguem-me! Fazem-me emboscadas e saltam-me em cima de supetão. Quando me apanham, é uma loucura maior que as festas em casa do Charlie Sheen. Tenho de dar uso ao cão e à bazuca.

Não sou. E isto é apenas um exercício de imaginação, já podem abrir os olhos… Mas, miúdas, são sempre bem-vindas!

Gonçalo Fortes


As lágrimas amargas de Penetra Von Kant

Não preguei olho a noite passada.

Horas de volteio horizontal, a insónia instalou-se de tal forma que a pálpebra aberta ganhou. E assim me deixei ficar, penumbroso animal de falcoaria.

A chuva lá fora não ajudava. Os trovões estalavam alto, como fazem todos os trovões. Estes só eram diferentes na organização. Tinham cadência, como pancadas de Molière.

De repente, senti uma dor. Quase como se um dos relâmpagos da rua tivesse entrado sem ser convidado. Um relâmpago fantasma que me atingiu em cheio no peito, atirando o meu coração para fora dali. Em teatro, o blackout é sempre o fim, e as pancadas o início. Por isso, decidi levantar-me. Petra estava na sala…

– Que estás a ler?, perguntei.

– Um dicionário. Sabias que a palavra “penetra” também é um substantivo? Significa alguém que vai sem ser convidado, sem pertencer ali.

– Não sabia. Mas faz sentido, é como o meu relâmpago fantasma. E a que propósito veio isso?

– Estava aqui a pensar nas minhas relações tripartidas, quadripartidas, confusas. E decidi dar-lhes nomes. Mas há coisas demasiado grandes para nomear. Quando o amor que se desprende nos arrebata até ao êxtase, nos deixa sem respiração, quando se quer ser feliz um com o outro, apenas aquele “um com o outro”, quando se diz “eu destruía a minha vida por ti”, que nome dar a isto? É grande, muito enorme. É um querer que é poder. É acção.

– Mas o poder corrompe, e abusa-se dele!

Os trovões faziam-se ouvir também ali, mas já fininhos… Não, não eram os trovões. Era um barulho mais ritmado, tap… tap tap… tap… tap… tap tap tap… Uma máquina de escrever, mas que escrevia também as pancadas de Molière. Fiz bem em levantar-me.

– Exacto. E foi esse abuso que se tornou cruel. Há uma submissão intrínseca que se procura, um constante topo. Através do sexo, do intelecto, do dinheiro, do estatuto… Há um amor que já não o é, que é só posse. Uma procura sádica de um masoquismo do outro. Mas isso não nos impedia, depois de atirar a loiça toda pelos ares, de abrir uma garrafa de Sekt e de nos entregarmos ternamente à cama. E não impede, ainda. Porque há mais amor por mim num dedo dele que todos os restantes dedos do mundo juntos. É por isso que ainda sou capaz de lhe dizer “Amo-te”.

– Está respondido, então. Aí tens um bom nome. Não chegaste foi a dizer-me o que te levou a ir procurar a palavra “penetra” ao dicionário.

– Ah, isso? É alguém que não pertence aqui. E isso é só o nome para tudo o resto.

O telefone toca, apesar de ser quase madrugada. Petra atende.

– Quem fala? Karin? Queridíssima Karin!… Como?… Vais voltar para o teu marido?… Karin, minha grande puta!

Gonçalo Fortes


Dias de um futuro esquecido

– Está alguém?… Está alguém?… Está… alguém?…

– Aqui!

– Aí, nesse recanto de sofá-escuridão?

– Sim, aqui onde me recosto e mal me vejo. E a ti. Mal te vejo. Quem és?

– Eu sou tu, de um futuro esquecido.

– Acontece. Por vezes esquecemos o que nunca tivémos de lembrar. O que era só respirar. Enquanto se respira há futuro, é o som do silêncio. Mas quando seguramos um fôlego cá dentro corremos riscos, diz o miolo que lhe falta o ar e perdem-se coisas. (ffffffffffffffffffffff) Desculpa, esqueci-me… Quem és tu?

– Sou tu, num regresso ao nada.

– Também sou isso, agora. O sofá é já uma frouxa curva do meu corpo e o candeeiro não acendeu.

– Toma, prova! As coisas são sempre melhores quando se tem vinho na barriga.

– Vês isto? Sou transparente, sou éter. O vinho não se cola aos dentes, não corre nas veias, não urina depois do hálito. Atravessa e cai, não há verdade neste vinho.

– Tu tens peso, afundas-te no sofá. Não me roubes o papel. O nada sou eu.

– Tens razão. Tu és… Desculpa… Tu és quem?

– Falemos apenas de coisas neutras e não dolorosas. Eu sou tu, dias de um presente passado.

– Como é que se escreve um respirar? Foste tu quem escreveu aquele ali atrás?

Gonçalo Fortes


What’s in a name?

A partir do dia 8 de Novembro, vai ser possível registar nomes  .xxx, o novo domínio destinado a sites pornográficos.

Os putos com acne a fazer as vezes de barba ou a malta que trabalha no graveyard shift irão agora deixar de ter os conteúdos libidinosos tão – passo a expressão – à mão. É que, após anos de dificuldades na criação do domínio, a empresa responsável usou como argumento o facto de que, desta forma, será mais fácil controlar o acesso a este género de sites.

Pois pois! Também sempre ouvi dizer que a masturbação causa cegueira…

Gonçalo Fortes


Super Tax Me

O bastonário da Ordem dos Médicos sugeriu ontem a criação de um imposto selectivo sobre “lixo alimentar” (http://www.publico.pt/sociedade/noticia/bastonario-dos-medicos-defende-criacao-de-imposto-sobre-a-fastfood-1510557). Neste aterro gastronómico encontram-se, entre outros,  fast-food ou o vulgar Cloreto de Sódio. Para os amigos hipertensos: sal!

Ora, sabendo que o McDonald’s só chegou a Portugal em 1991 e que 40% dos óbitos são devidos a doenças cardiovasculares, sendo estas a principal causa de morte no país, é justo admitir que se taxe o cozido à portuguesa, a chispalhada ou até a sandes de courato.

Podemos ir ainda mais longe e aplicar o imposto aos rebuçados. Este caso, porém, não deve ser tratado de ânimo leve. Pode levar a um aumento da criminalidade, dando todo um novo significado à expressão “roubar doces a uma criança”.

Se decidirmos sair do cabaz alimentar, proponho benefícios fiscais a quem comprar Crocs contrafeitos, reduzindo os gastos do SNS com o tratamento de unhas encravadas. Mas apenas os contrafeitos. Os originais não, porque já são consumo de luxo, sujeitos a outro imposto.

De notar que este mesmo médico referiu, há menos de uma semana, que as dificuldades financeiras  são a principal causa dos problemas mentais (http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/problemas_financeiros_causam_doencas_mentais). Ou seja, receita de imposto sobre fast-food de um lado, despesa na construção de uma nova ala psiquiátrica na casinha cor de rosa da Av. do Brasil do outro.

Da minha parte pretendo evitar uma fuga para as offshores dos cheeseburgers. Adepto ferrenho dos arcos dourados e dos frangos do Coronel, decidi vender gordura corporal à indústria do sabão. Dá para pagar o imposto e ainda mantenho a sanidade mental.

Gonçalo Fortes