Dias de um futuro esquecido

– Está alguém?… Está alguém?… Está… alguém?…

– Aqui!

– Aí, nesse recanto de sofá-escuridão?

– Sim, aqui onde me recosto e mal me vejo. E a ti. Mal te vejo. Quem és?

– Eu sou tu, de um futuro esquecido.

– Acontece. Por vezes esquecemos o que nunca tivémos de lembrar. O que era só respirar. Enquanto se respira há futuro, é o som do silêncio. Mas quando seguramos um fôlego cá dentro corremos riscos, diz o miolo que lhe falta o ar e perdem-se coisas. (ffffffffffffffffffffff) Desculpa, esqueci-me… Quem és tu?

– Sou tu, num regresso ao nada.

– Também sou isso, agora. O sofá é já uma frouxa curva do meu corpo e o candeeiro não acendeu.

– Toma, prova! As coisas são sempre melhores quando se tem vinho na barriga.

– Vês isto? Sou transparente, sou éter. O vinho não se cola aos dentes, não corre nas veias, não urina depois do hálito. Atravessa e cai, não há verdade neste vinho.

– Tu tens peso, afundas-te no sofá. Não me roubes o papel. O nada sou eu.

– Tens razão. Tu és… Desculpa… Tu és quem?

– Falemos apenas de coisas neutras e não dolorosas. Eu sou tu, dias de um presente passado.

– Como é que se escreve um respirar? Foste tu quem escreveu aquele ali atrás?

Gonçalo Fortes

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