Monthly Archives: Outubro 2011

Deus ex machina

Não há. Esta história é linear. E acaba aqui.

Gonçalo Fortes


Amadeus

Era uma vez um rapaz que finalmente acertou no título e agora não tem nada para escrever…

Gonçalo Fortes


Ama a Deus

Era uma vez um rapaz muito aplicado e religioso. Um rapaz que amava a Deus. Era bom aluno, escovava os dentes e rezava todos os dias. Um dia decidiu que queria ser compositor. Deus achou que isso da artes não era de boa gente e castigou-o. Surdo mas eroico (sem h e sem acento), compôs três, afinando o diapasão entre os dentes. Mas Deus não é bom perdedor e rebentou-lhe a cremalheira. Sem sorriso que atraísse rapariga, continuou a trabalhar e compôs mais quatro. Deus não gostou e ofereceu-lhe um saquinho cheio de cirrose, sífilis, hepatite, envenenamento por chumbo, sarcoidose e doença de Whipple. E ainda lhe roubou uma harpa, que havia um querubim que andava a fazer gazeta. Prestes a desligar a máquina, a enfermeira perguntou-lhe: Tu aí, rapaz da nona, como é que te chamas?

Ludwig van Beethoven, senhora.

Gonçalo Fortes


Ama, adeus!

Era uma vez um rapaz que era violado pela sua ama enquanto os pais iam ao cinema. Um dia os pais voltaram mais cedo e despediram a ama. O rapaz, com uma espécie de Síndroma de Estocolmo, foi à janela, colocou a mão no vidro embaciado e gritou cá para fora: Ama, adeus!

Gonçalo Fortes


Amman? Deus!

Era uma vez um rapaz que morava na capital da Jordânia. Uma vez saiu à rua para ir comprar rebuçados e quando deu por si estava em Israel. O  país mudou, mas o Deus era o mesmo. Os rebuçados é que sabiam um bocadinho pior…

Gonçalo Fortes


I wanna do bad things with you

…oh yes I do!

Gonçalo Fortes


Nulogamia

É automático! Assim que o copo me chega às mãos, se trouxer palhinha, deixa logo de a ter. Sempre assim fiz. Não é coisa de homem, beber por palhinhas. Tal como se perde a masculinidade se o copo trouxer uma sombrinha ou um qualquer líquido colorido, como esses Safaris, Blues Coraçaos ou Pisangs Ambons da vida. Bebida de homem é branca, amarela ou vermelha-escura e arranha sempre na traqueia, por gás ou por força. E sorve-se pela borda do copo.

E onde é que eu pretendo chegar com isto, para além de demarcar a existência dos Alcoólicos Anónimos Gays? Ao filme Crazy Stupid Love. Não me crucifiquem já: era a terceira hora do dia, a mioleira já não consumia muita Fosfoglutina B6 e uma  comediazinha romântica de fácil digestão era mesmo a desculpa que precisava para não ir dormir. Sim, que estas coisas do amor muitas vezes são farta brutos ou fazem azia. Podia dizer que gostei do filme pelos engates com classe ou porque havia muitas gajas boas. Mas na verdade, só estou a escrever isto porque no meu último texto não entrou nenhuma gaja. Nem apareceu a palavra “gaja” sequer. Ou no plural: “gajas”. Ou até o carinhoso que qualquer homem atira a uma desconhecida de pernas longas: “Ganda cavalona!”. Não! Não apareceu nada disso no meu último texto. E também não vai aparecer neste. Porque o que mais gostei no filme foi uma conversa sobre um copo com palhinha que vai totalmente de encontro ao que escrevi ali atrás.

Mas houve uma ideia colateral que me deixou a pensar: não percebo as pessoas que não conseguem estar sozinhas! O que nos leva ao título, que isto hoje é um dois em um: critica-se o filme e revisitam-se os costumes. Ou vice-versa…

Por sozinhas, não quero dizer completas solitárias, eremitas de pêlo na venta, que é pilosidade unissexo. Porque engate esporádico ou até frequente não invalida a condição de sozinho. Na manhã seguinte, expulsa-se o engate de casa e puff… home alone e nem sequer é Natal! E não há motivo para preocupação: o mundo pode estar a derreter, mas as mulheres bonitas são continuamente produzidas. Também não estou aqui a atacar a opção. Refiro-me mesmo à necessidade patológica de procurar sempre alguém para constante. Sempre uma muleta emocional para gostar delas. Uma monogamia sucessiva em detrimento de uma auto-estima sucessivamente crescente. É como acender cigarros uns nos outros, também faz mal aos pulmões.

E leva ainda ao não aproveitamento das vantagens óbvias. Se existisse no dicionário, a palavra “nulógamo” seria algo assim:

nulógamo
(nulo- + -gamo)

adj. s. m.
1. Que vive sozinho e à vontade.
2. Que bebe pela garrafa e arrota.
3. Que faz os horários que lhe apetece.
4. Que não limpa a banheira depois do banho.
5. Que não baixa a tampa da sanita.
6. Que acasala com montes de fêmeas. Porque pode. E gosta. E elas também, esperançosamente.
7. Que não tem de aturar birras ou discussões por todas as anteriores.
8. Que é invejado pela família e amigos por todas as anteriores, inclusive a 7.

Segundo o filme, o amor é estúpido e louco. Eu vou mais longe. Com a devida vénia ao MEC, concordo que O Amor é Fodido. Mas é preciso separar do que escrevi atrás. Se for de facto amor, será fodido, e assim até percebo que se aja de forma estúpida. Também eu o farei! O que não me cabe mesmo na cabeça é beber por palhinhas…

Gonçalo Fortes








Shell shock

O corpo deixou de me respeitar. Começou pela função urinária. Essa não precisou de contacto físico, bastou a desordem dos fuzis e os gritos dos homens. Por esta altura o resto ainda se movia. O diktat da sobrevivência forçou o correr das pernas e o espremer do gatilho que os dedos faziam por instinto mostrava que as mãos ainda lá estavam. À minha volta mexiam-se também os restantes deste teatro. Mal sabiam que seria por pouco tempo…

Começa sempre com uma carga machista. Ainda há moral no espírito, álcool na camaradagem e fausto no corpo. É um ímpeto que será lavado em sangue. Dos três, só o álcool irá manter-se, por sua vez sustentando o moral. Mas também este será desperdiçado no corpos que tombam. Inimigos ou aliados, todos o bebem, só não do mesmo cálice. E todos o derramam… Correm por entre os blindados, mas não o são eles próprios. Os pesados ficam para trás. Por cansaço, os da gordura. Por distância, os artilheiros. Peso igual, ataques diferentes. Asas de ferro fazem sombra cá em baixo, largando Napalm B(abel) e sabendo que algo vai mal quando conseguimos cheirar a nossa própria carne. Por esta altura ainda se mexiam os restantes deste teatro. E eu com eles…

Agora já não. A minha perna está num ângulo esquisito, não me lembro de alguma vez o ter feito. Mas a dor relembra-me uma e outra vez que ela existe. A outra, a esquerda, também. E faz mais ou menos o mesmo ângulo… Mas existe a três metros de mim e a distância que nos separa faz-me perceber porque já não me respeita. Enquanto repito a filosófica questão “Porque estou aqui?“, oiço os assobios. São diferentes dos que se costumam soltar às moças. Estes são monótonos, pequenos silvos na bisga, que me rasam a cabeça. Os que não se cravam na árvore que me serve de apoio às costas são mais ou menos assim: rasou, não rasou, mais longe, rasou, perto, mais perto, rasou, raspão… Raspão! Um olho.

Antes de perder a perna, perdi a espingarda. Mas já sem a mão direita, enterrei uma baioneta no coto que era braço. Mais dor não me fez diferença e não queria ficar indefeso. Mais indefeso… Já dizia o saudoso Sargento Santos “Só custa até doer. Em doendo dói sempre!“. Digo saudoso, porque acho que era ele caído ali atrás. A mão esquerda dispara grosseiramente a pistola pessoal, num último esforço de bravo-louco-ura. As munições são poucas, mas suficientes para causar o sobre-aquecimento. Não é quentinho confortável, é explosivo! E lá se vão a pistola, a mão esquerda e a baioneta, cravada no peito deste cabrão… pessoa… pessoa que me tenta matar… animal… matar ou morrer… cabrão, pessoa, eu?

A moral é interrompida pelo som abafado de algo que cai no pasto. E é nesta altura que o meu abdómen se demonstra um valente, um bravo do pelotão. Numa tentativa de me salvar a vida, coloca-se, de salto, entre mim e uma granada à qual já retiraram a cavilha. Acho que vai ser fácil para os médicos extraírem agora a bala que trazia alojada no pâncreas…

Pela descrição acima, é bom de ver que deveria estar morto. Mas não, safei-me. Acabei apenas numa cadeira de rodas que suporta uma algália, controlada pela boca desfigurada e com noites de pouco sono e muitos ainda tiros… Tive sorte, agora posso jogar bócia. Hooah!

Gonçalo Fortes




Et tu, Brute?

Por esta é que eu não estava à espera. Mas a vida é mesmo assim, apanha-nos desprevenidos. Tal como um agarrado em heroína não está à espera de ter de fazer bicos para pagar o vício. E nada me poderia preparar para o inesperado daquele dia. Acordei de manhã, mas já era tarde. Tomei o pequeno-almoço, tornando-se um chá das cinco. E saí para a rua, trabalhar numa sala que era afinal onde já estava.

Em meio a esta realidade invertida, revi-me sentado na sala, numa cadeira amordaçada. De pé a meu lado, uma mulher, que representa aqui todas as mulheres. Ao pescoço, uma corrente acabada no círculo de Marte. Todos os homens. O Povo.

Estava um bocado azul e bufava. Eu, não a mulher. Achando que era da mordaça,  ela decide soltar-me. Era então chegada a altura de estourar uma veia na cabeça… Gritei-lhe Mentiroso! Sou um mentiroso! numa ovulação verborreica de periodicidade diária, apesar de isto se passar tudo num dia só.

Não és nada. Porquê?, perguntou ela.

Porque digo coisas que não cumpro. Prometo prometo prometo e depois mudo de ideias. Sou um mentiroso… Porque estou sempre a imaginar novas definições de sodomia para aplicar ao Povo, quando este espera que eu seja mimoso e só faça conchinha.

Neste momento, ela toca-me no ombro e diz-me Acalma-te! Não é nada assim… Aquele toque faz-me desejá-la por inteiro. Excepto o fio ao pescoço. Faz-me querer escorrer as mãos pelo corpo dela, e tocá-la, e cheirá-la, e… Perdão! Por momentos deslizei para outra realidade, em que tenho 15 anos e estou num concerto da Ana Malhoa. Isto das realidades em cascata é complicado de gerir. Mas não me abandonem ainda. Há método na minha loucura e não envolve tomar medicamentos com as letras Z ou X no nome. Continua ela:

Porque todos os dias são feitos de decisões. A existência é isso. Mediante os eventos de cada dia, fazemos escolhas e caminhamos. Se te enganaste no caminho, não podes continuar na mesma direcção por mais 3 anos e 364 ou 365 dias, dependendo se o ano é bissexto. Tens de te ajustar. É assim que nós vivemos todos os dias e é natural que tu também tenhas de o fazer.

Nós?

Sim, nós! Porque tu és um de nós e nós somos tu. Somos a polis. E apesar de planearmos, adaptamo-nos. E somos sensatos e informados e não exigimos obediência cega a conjunturas que são agora mutantes. Compreendemos-te. Se te não te adaptas, ficas à deriva. E as nossas vidas não são chance, são xadrez.

Mas se sou um de vocês, porque é que me aprisionas?

Tu és livre de ir. Sempre foste. Tal como nós, de fazer escolhas e perceber as dos outros.

Olho em volta e apercebo-me da montra da loja de móveis. A cadeira está fora do sítio, decido arrumá-la. Quando me viro, ela já não está. Vejo-a então espe(a)lhada em todas as pessoas que passam lá fora. É natural e às vezes obrigatório mudar de ideias, pensei. Isso não as torna erradas. E quando me chamarem mentiroso eu vou responder: oh minha senhora, eu não sou político! Eu só minto quando digo continua, não pares, eu aviso antes!

 

Gonçalo Fortes


A História repete-se sempre duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa

Nos dias que correm vejo política em todo o lado: na televisão, nos decotes das miúdas louras que passam, nos jornais, nos tornozelos das miúdas morenas que passam, na internet,  nas burcas das miúdas muçulmanas que passam…

Foi assim inevitável ir lá parar durante o último episódio da série True Blood. O vampiro Bill (não, não é Igor, Nosferatu ou Vladimir… É Bill!) , num acesso de raiva, presas de fora, estaca de madeira na mão, coberto de sangue, gritou alto e bom som: “We are not fucking puppie dogs”. Pimba! Política!

Formulei logo várias ideias acerca do que escrever adiante. Tantas, que provavelmente dariam para desancar cada um dos 300 mil, à vez. Depois achei que eram muitos: caso se virassem a mim todos ao mesmo tempo, não sei se me apeitava. Decidi então resumir tudo neste único texto… Único, mas concentrado.

E por 300 mil não me refiro a nenhuma versão em esteróides dos 300 de Esparta. Esses, pelo menos, ainda foram corajosos, empreendedores e auto-suficientes. Refiro-me, sim, aos alegados 300 mil patos-bravos que participaram no Movimento 12 de Março. Diz que vai voltar a haver romaria no dia 15 de Outubro, o que deverá causar uma crise de identidade. Como se chamarão daqui para a frente? 12 de Outubro? 15 de Março? 1512 d’Outurço?

Tendo tido mais seis meses para arranjar – ou criar – emprego, gastaram-nos, azafamando-se em gritarias, copos e queixumes, a planear mais uma tarde de gritaria, copos e queixumes. Compreendo. Também faço isso todos os fins de semana, quando vou sair. E gosto!

Mas vou deixar-me de brincadeiras. Primeiro, porque o assunto é sério. E depois, porque não me apetece gastar aqui todo o meu stock de piadas ordinárias. Recorrendo às palavras de Karl Marx que nomeiam este texto, começo por fazer uma súmula do que escrevi, e de algumas conversas que tive, na primeira iteração desta história, a 12 de Março:

«Ainda considerei ir, mas este manifesto incomoda-me muito. Podia ser uma ideia interessante, um protesto genérico, é preciso mudar sem olhar a ideologias, não interessa o lado. Mas não, é só mais do mesmo, fácil. Enquanto culparmos os políticos pelos nossos problemas, a única solução que nos ocorre é choramingar!

‎”Vou porque ganho mal, e não por sentido cívico e cidadania“. Umbigos em queixumes, culturas burguesas e uma pitada de ignorância política.
Não me ocorre que tenhamos perdido o direito ao emprego ou à educação. Não basta estalar os dedos, é preciso tomar boas decisões e criar estruturas. Gostaria de ver se toda esta energia também serve para votar, criar empresas ou até fazer voluntariado numa causa concreta.

Protestar não tem de ser sair para a rua e gritar. Pode ser fazer as coisas como deve ser, levá-las pelo caminho que se quer. E quando formos muitos a fazer isso, as coisas ficam encaminhadas. É muito bonito gritar por soluções sem se perceber que se é uma grande parte do problema. É como o Natal ou os funerais: faz-se nestes dias o que se devia ter feito a vida toda e limpamos a consciência.

Sendo neste caso sair para a rua e gritar, a manifestação pedia para toda a gente levar uma folha A4 com uma proposta de solução. Pergunto quantas pessoas farão isso e a qualidade das soluções.

E atenção: eu não estou aqui a defender que não é preciso mudar. Estou apenas a dizer que há muitos tipos de mudança possível e que não concordo com o manifesto da manifestação. Considerei, porque achei que isto podia ser uma boa ideia. Mas é dito expressamente que o manifesto é o único documento oficial da manifestação, e este é claro. Como não me considero escravo disfarçado, subcontratado, contratado a prazo, falso trabalhador independente e outros que tais, então, por definição, não me querem lá e eu não quero ir. O pensamento livre é isto, não é acorrer em magote sempre que alguém brandir um megafone.

Eu não debato que gostaria de estar melhor, toda a gente gostaria. Mas também gosto de estar como estou. E debato que são o meu trabalho, o meu mérito e as minhas decisões que influenciam na quase totalidade da minha situação. E sinto que essa proporção dirige o meu futuro para algo melhor, fazendo com que este seja o meu protesto e o meu contributo para um país melhor.

Mas manifestai-vos à vontade, não estou aqui a julgar ninguém!»

Prolepse para os dias de Outubro, e um retorno aos fucking puppie dogs do início enquanto construo em cima do que já foi dito:

Não percebo esta ideia de que têm de tomar conta de nós, como se fôssemos cachorrinhos abandonados. Trabalho há muito, mas nem toda a gente lhe chama emprego. As boas decisões que referi atrás começam muito antes da procura de emprego. Não se pode tirar um curso de educação de infância, por exemplo, e depois ficar eternamente a dizer “se tenho uma licenciatura, é para ir trabalhar no que quero!”, recusando trabalhos legítimos à espera de um emprego que nunca aparece. Deixem-se passar vinte anos e ainda estarão a reclamar, pertencendo já ao Sindicato das Mary Poppins na Menopausa. Todos os dias existem casos de pessoas que são chamadas para entrevistas de emprego, para simplesmente não aparecerem. Ou então aparecem apenas para carimbar o papel do IEFP, dizendo que não querem sujar as mãos ou que vem aí Agosto e já pagaram o time-share em Albufeira. Tudo para manter o subsídio de desemprego. Porque, infelizmente, as razões são variadas: elitismo do curso superior, preguiça, oportunismo. Há muita gente que transita entre subsídios de desemprego e Planos Ocupacionais financiados pelo Estado, nunca produzindo e fazendo do benefício um modo de vida. Até há alguns que querem trabalhar mas, espertalhões, fazem-no às escondidas, sem pagar impostos e recebendo na mesma a renda estatal, enganando duplamente o sistema…

O que nos leva à economia paralela, a bazófia preferida do português. É o maior orgulho da tasca: descrever como se enganou o fisco entre dois bota-abaixo o mata-bicho. E eu nem defendo um sistema fortemente sustentado por impostos. Mas, sendo isso o que temos, defendo sim a honestidade. Porque estou mesmo a falar de questões enraizadas na nossa cultura oportunista. É que neste sistema dinâmico, as coisas estão relacionadas umas com as outras: não se pode falar do proteccionismo do Estado na mesma frase em que se diz “ah, com IVA o preço é outro”. Qualquer procura séria de verdades políticas envolve também o escrutínio das verdades pessoais.

Ignorando estas atitudes, infelizmente demasiado transversais à nossa sociedade, insistimos em vir para a rua reclamar paz, pão, habitação, saúde e educação. Alguns destes serão direitos – em minha opinião, nem todos – mas achamos que não temos deveres. É reivindicar sem conquistar. Mas apesar deste modus vivendi de subsidiodependência à espera de um qualquer messias sebastianista, continuamos a ser um país de deslumbrados. Temos o maior número de telemóveis per capita da Europa, dois carros de gama média para alta por família, empréstimos sobre cada um deles e sobre uma casa que até podia ser mais comezinha, somando dívidas que ascendem a 135% das nossas posses. O quinhão de cada um de nós no endividamento externo. Mas não olhamos para dentro e culpamos o Governo…

Helen Keller, famosa activista política do final do século XIX e início do século XX, curiosamente uma radical militante do Partido Socialista, disse: “Security is mostly a superstition. It does not exist in nature, nor do the children of men as a whole experience it. Avoiding danger is no safer in the long run than outright exposure. Life is either a daring adventure, or nothing.”

Porque não é tarefa de um governo criar empregos, mas sim criar as condições que permitam a um país crescer e criar riqueza, e desenvolver-se como uma sociedade livre. Condições que respeitem e garantam a liberdade individual. Esta garantia não pode ser conseguida num regime político intrusivo, em que o Estado decide pelas pessoas, produz pelas pessoas, faz escolhas por elas… É preciso uma desestatização mental.

Escrevi há uns tempos o seguinte: “Estado, vai-te fo#@%!”. Escrevi isto na esperança de gerar polémica através da possível – e comum – confusão entre Estado e Governo, que as pessoas tanto gostam de dizer mal. Não gerei muita polémica, mas o objectivo não foi apenas esse. Foi escrito com a crença de que é preciso emagrecer o Estado e que desta é que vai ser. O Estado tem de ser reformado, inclusive constitucionalmente. Se assim não for corremos o risco de ficar agarrados a dogmas desactualizados, que nos trouxeram à actual situação que vivemos. Há 25 de Abril todos os anos e 1974 já foi há 40, sigamos em frente. Acabe-se com o Estado gordo e ineficiente e com a soberania que nos preenche a vida onde não é convidada.

A ironia é que há uma parte de neoliberal neste protesto. Atira-se fúria à precariedade, mas uma das grandes gorduras do Estado é causada pela falta desta, na geração dos nossos pais. Abotoaram os direitos adquiridos só por respirarem, lacraram-se nas cadeiras estatais onde assobiavam os dias e não deixaram nada para nós. E ainda lá estão muitos, com os fatos já coçados pelos anos de assento. Porque só em Portugal é que há esta ansiedade de ter um emprego até que a morte – ou a reforma – nos separe. Em muitos países desenvolvidos, a mobilidade no trabalho é bem recebida, quer por quem trabalha, quer por quem dá trabalho. Não é incomum trocar-se de emprego ao fim de seis meses e isso é visto como experiência.

E não façam muito caso da distinção que fiz ainda agora: quem dá trabalho também trabalha. As famigeradas Micro, Pequenas e Médias Empresas que, já com os dedos marcados no pescoço, sustentam a insustentabilidade. Porque felizmente, além das pessoas que choram, também há as que vendem lenços. Há quem corra riscos, invista dinheiro e suor. Há quem ponha mãos à massa e trabalhe sem se preocupar se é sexta-feira e sem estar sempre a olhar para o relógio. É possível criar estruturas. Até porque é uma receita óbvia: para dar emprego de um lado, este tem de ser criado do outro. Nunca percebi os cartazes na rua que dizem “Mais emprego”, “Mais produção”… Que raio quer isto dizer? Haverá mais emprego quando alguém o criar.

Curiosamente a iniciativa privada, que cria empregos, também é atacada por quem quer que lhes dêem um. Já que se tem o megafone na mão, vai tudo a eito. Criticam-se os patrões, os horários, os lucros, os objectivos, as secretárias, que são já velhas e feias e deviam ser novas e boazonas… Ignorando o risco que quem cria uma empresa corre, as dores de cabeça por manter a engrenagem em movimento, pagar salários e impostos, achamos que é sempre alguém oportunista, que nos quer explorar e enganar. E apesar de não trabalharmos muito porque não nos apetece e recebermos o nosso ordenado por inteiro, diabolizamos os lucros de uma empresa e as pessoas que os tornaram possíveis, além dos nossos ordenados. E atenção, não estou a desvalorizar o valor do “trabalhador” e o seu contributo para esses lucros. Até porque estas críticas não são feitas apenas por quem trabalha a quem lhe dá trabalho. Quero apenas clarificar um preconceito que acho injusto. Estas críticas são genéricas, atiçadas a qualquer pessoa que fuja à carneirada. Qualquer pessoa que se destaque e tente criar obra. Uma sinfonia, um livro, um edifício, uma filosofia, ou a moda actual para a crítica: uma empresa.

Ayn Rand, filósofa russa do século passado e criadora do movimento chamado Objectivismo, lançou para debate a seguinte questão: “Poderá um homem ter direito à vida se se recusar a servir a sociedade?”. Por servir a sociedade, referia-se a fazer o que o colectivo faz e não se destacar. A mente de uma pessoa é individual e muitas das obras da Humanidade partiram de pessoas singulares e razões egoístas. As inovações que estas obras trouxeram foram muito diferenciadas nas áreas da Humanidade que afectaram, do fogo à roda, da anestesia ao avião, passando pela posição do Sol em relação à Terra. Mas houve um padrão: todos os criadores foram considerados transgressores. Loucos, pagãos, traidores, que foram queimados, banidos ou sujeitos a uma carga de porrada. E não daquelas em que pagamos a duas prostitutas de Amesterdão para nos darem…

Foram sujeitos a este julgamento pelo colectivo parasítico que os rodeava, tentando ancorar sempre o seu destaque, mas depois absorvendo e alimentando-se do seu trabalho, alegando altruísmo. Independentes e vivendo para a sua obra, os criadores prosseguem em surgir, deixando o colectivo a viver em segunda mão. E clarifico que não estou a falar de individualismo versus trabalho de equipa ou que não devemos viver em sociedade. Aliás, o tag-team  das prostitutas ali atrás demonstra que até defendo o trabalho de equipa.

Refiro-me a liberdade de pensamento e concretização de realidades individuais. Refiro-me ao avanço que uma simples ideia pode trazer à Humanidade, se for posta em prática. Refiro-me à injustiça nos ataques a causas que consideramos egoístas. Por definição, o objectivo de uma empresa é o lucro. Mas isso não a torna imoral. Não é sinónimo de pessoas maltratadas, de salários baixos, de corrupção ou maus patrões. Antes pelo contrário, as empresas também têm uma função social. E o lucro permite uma melhoria das condições das pessoas, permite o reinvestimento e o crescimento, permite a geração de novos empregos.

José Pedro Aguiar Branco fez aquele que eu considero o melhor discurso político da década, no dia 25 de Abril de 2010 (http://goo.gl/alNHc). Valendo-se de algumas citações de personalidades que piscavam o olho à esquerda, disse coisas como: “Povo é o operário da Lisnave e o seu accionista. Povo é cada um de nós. Povo somos nós.” ou “Onde a esquerda lê Povo, nós lemos iniciativa privada ou social.”.  É preciso acabar com este preconceito e criar aproximações. Tem de haver a percepção que qualquer pessoa pode, sim, em vez de ir à manifestação, abrir uma loja de megafones. Em dia destes, é uma mina de ouro. E sempre deixa de achar que precisa que o Estado tome conta dela!

Não vou falar do voluntariado que falei lá bem atrás, porque isso fica à consciência de cada um. Ou a um qualquer Tributo Solidário, para justificar mais um subsídio…

Mas quero falar do votar. Queixamo-nos da democracia representativa, mas as nossas taxas de abstenção continuam absurdamente altas. Queremos democracia directa, mas não nos envolvemos nos aparelhos que já temos montados. Nem vou elaborar muito nos perigos da democracia directa e referir o plebiscito constitucional de 1933 que, dando o poder ao povo, elegeu Salazar e nos trouxe 40 anos de ditadura. Porque a democracia não representa necessariamente a verdade. Mas o envolvimento do povo nos seus orgãos aproxima-a disso. E que tal uma participação mais directa nos partidos, contaminando-os com ideias e filtrando os seus líderes? Dessa forma, não teremos perdido toda a fé a cada 4 anos, porque as pessoas que lá estão já foram previamente escolhidas por nós e até partilham as nossas ideias. E convém ir votar nesses dias, porque senão ganha o outro que não fomos nós a escolher. Seguimos este lugar-comum da revolução, de uma mudança que me parece sempre tendenciosa no sentido.

Curiosamente já mudámos. Mas porque queixar é cultural lusitano, insistimos em não o ver, mantendo o preconceito ideológico. E se fosse um queixar inócuo, do estilo “Vim aqui queixar-me porque pensava que tinha um tumor nas nalgas, mas afinal era só o telemóvel no bolso de trás das calças!”, não seria muito grave. Mas não é. Dizemos que os políticos são sempre “os mesmos”, que são todos iguais. Todos incompetentes e mentirosos, todos da mesma laia. Considerar isto é pôr em causa a própria democracia. Se são todos iguais, não faz sentido a escolha, o acto eleitoral e a renovação democrática. Não representando a democracia a verdade, ainda é o menor dos males. José Sócrates disse na sua passada campanha eleitoral que este PSD é o mais radical dos últimos 30 anos, ideologicamente falando. Achou que isto era bom para a campanha PS, eu achei que estava a dizer às pessoas que é possível existir mudança dentro daqueles que são “os mesmos”. E pela primeira vez, temos ideias novas e uma verdadeira alternativa de Governo. Claro que muitas medidas são impopulares, mas infelizmente fazem falta. Há que contra-balançar o despesismo populista dos últimos anos. Mas isso demonstra a coragem que é preciso ter para as pôr em prática, sacrificando eleitoralismos.

E apesar de me considerar rapaz das economias – e pensamentos – liberais, não defendo o capitalismo laissez-faire. Não podemos é ter um estado que é jogador e legislador ao mesmo tempo. Retira-se de onde não é preciso e fica como regulador. Um Estado que tudo dá, tudo tira. É uma ditadura disfarçada que se pode tornar muito perigosa, não deixando nada para “eles comerem tudo e não deixarem nada”. O próprio Álvaro Cunhal concordou comigo, mesmo antes de eu ter nascido, tendo dito durante o PREC que não pretendia fazer uma revolução socialista, optando por um capitalismo regulado e a manutenção da propriedade privada. Se não tivesse morrido, estava aqui a subscrever tudo o que digo, de certezinha absoluta!

Se a economia do nosso país melhorar, toda a gente melhora com ela. E não é com mentalidades antiquadas e preguiçosas que o vamos conseguir. Nem com um Estado gordo a gastar indiscriminadamente o que nem sequer tem. Somos a geração mais qualificada. Então trabalhemos para algo melhor. Usemos essas qualificações para consolidar estruturas. Para criar exemplos dos rumos que queremos. Participemos activamente nos orgãos políticos. Acabemos com o despesismo, a cultura do subsídio e deixemos de achar que precisamos que tomem conta de nós. Mude-se sim, mas primeiro as mentalidades e as culturas. Se o Gorbachev me permitir o léxico, digo que precisamos de mais glasnost no espírito e perestroika na carteira.

Desculpem-me, 1512 d’Outurços, mas não vou poder ir. Vou estar ocupado a criar empregos. Alguém quer um? Bem me parecia que não!

Gonçalo Fortes

Deixo aqui alguns cartazes de 12 de Março, para que se perceba a qualidade das propostas. A última imagem não é, mas apareceu na pesquisa do Google. Decidi colocá-la também, é sem dúvida a que tem mais qualidade…


Olá, Nabokov

Estou naquele momento da vida em que mais dez, menos dez, marcha tudo. Refiro-me a mulheres e a idades, não a mulheres e a belezas. Uma simetria perfeita que não se voltará a repetir sem rugas.

Gonçalo Fortes