Monthly Archives: Outubro 2011

Deus ex machina

Não há. Esta história é linear. E acaba aqui.

Gonçalo Fortes

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Amadeus

Era uma vez um rapaz que finalmente acertou no título e agora não tem nada para escrever…

Gonçalo Fortes


Ama a Deus

Era uma vez um rapaz muito aplicado e religioso. Um rapaz que amava a Deus. Era bom aluno, escovava os dentes e rezava todos os dias. Um dia decidiu que queria ser compositor. Deus achou que isso da artes não era de boa gente e castigou-o. Surdo mas eroico (sem h e sem acento), compôs três, afinando o diapasão entre os dentes. Mas Deus não é bom perdedor e rebentou-lhe a cremalheira. Sem sorriso que atraísse rapariga, continuou a trabalhar e compôs mais quatro. Deus não gostou e ofereceu-lhe um saquinho cheio de cirrose, sífilis, hepatite, envenenamento por chumbo, sarcoidose e doença de Whipple. E ainda lhe roubou uma harpa, que havia um querubim que andava a fazer gazeta. Prestes a desligar a máquina, a enfermeira perguntou-lhe: Tu aí, rapaz da nona, como é que te chamas?

Ludwig van Beethoven, senhora.

Gonçalo Fortes


Ama, adeus!

Era uma vez um rapaz que era violado pela sua ama enquanto os pais iam ao cinema. Um dia os pais voltaram mais cedo e despediram a ama. O rapaz, com uma espécie de Síndroma de Estocolmo, foi à janela, colocou a mão no vidro embaciado e gritou cá para fora: Ama, adeus!

Gonçalo Fortes


Amman? Deus!

Era uma vez um rapaz que morava na capital da Jordânia. Uma vez saiu à rua para ir comprar rebuçados e quando deu por si estava em Israel. O  país mudou, mas o Deus era o mesmo. Os rebuçados é que sabiam um bocadinho pior…

Gonçalo Fortes


I wanna do bad things with you

…oh yes I do!

Gonçalo Fortes


Nulogamia

É automático! Assim que o copo me chega às mãos, se trouxer palhinha, deixa logo de a ter. Sempre assim fiz. Não é coisa de homem, beber por palhinhas. Tal como se perde a masculinidade se o copo trouxer uma sombrinha ou um qualquer líquido colorido, como esses Safaris, Blues Coraçaos ou Pisangs Ambons da vida. Bebida de homem é branca, amarela ou vermelha-escura e arranha sempre na traqueia, por gás ou por força. E sorve-se pela borda do copo.

E onde é que eu pretendo chegar com isto, para além de demarcar a existência dos Alcoólicos Anónimos Gays? Ao filme Crazy Stupid Love. Não me crucifiquem já: era a terceira hora do dia, a mioleira já não consumia muita Fosfoglutina B6 e uma  comediazinha romântica de fácil digestão era mesmo a desculpa que precisava para não ir dormir. Sim, que estas coisas do amor muitas vezes são farta brutos ou fazem azia. Podia dizer que gostei do filme pelos engates com classe ou porque havia muitas gajas boas. Mas na verdade, só estou a escrever isto porque no meu último texto não entrou nenhuma gaja. Nem apareceu a palavra “gaja” sequer. Ou no plural: “gajas”. Ou até o carinhoso que qualquer homem atira a uma desconhecida de pernas longas: “Ganda cavalona!”. Não! Não apareceu nada disso no meu último texto. E também não vai aparecer neste. Porque o que mais gostei no filme foi uma conversa sobre um copo com palhinha que vai totalmente de encontro ao que escrevi ali atrás.

Mas houve uma ideia colateral que me deixou a pensar: não percebo as pessoas que não conseguem estar sozinhas! O que nos leva ao título, que isto hoje é um dois em um: critica-se o filme e revisitam-se os costumes. Ou vice-versa…

Por sozinhas, não quero dizer completas solitárias, eremitas de pêlo na venta, que é pilosidade unissexo. Porque engate esporádico ou até frequente não invalida a condição de sozinho. Na manhã seguinte, expulsa-se o engate de casa e puff… home alone e nem sequer é Natal! E não há motivo para preocupação: o mundo pode estar a derreter, mas as mulheres bonitas são continuamente produzidas. Também não estou aqui a atacar a opção. Refiro-me mesmo à necessidade patológica de procurar sempre alguém para constante. Sempre uma muleta emocional para gostar delas. Uma monogamia sucessiva em detrimento de uma auto-estima sucessivamente crescente. É como acender cigarros uns nos outros, também faz mal aos pulmões.

E leva ainda ao não aproveitamento das vantagens óbvias. Se existisse no dicionário, a palavra “nulógamo” seria algo assim:

nulógamo
(nulo- + -gamo)

adj. s. m.
1. Que vive sozinho e à vontade.
2. Que bebe pela garrafa e arrota.
3. Que faz os horários que lhe apetece.
4. Que não limpa a banheira depois do banho.
5. Que não baixa a tampa da sanita.
6. Que acasala com montes de fêmeas. Porque pode. E gosta. E elas também, esperançosamente.
7. Que não tem de aturar birras ou discussões por todas as anteriores.
8. Que é invejado pela família e amigos por todas as anteriores, inclusive a 7.

Segundo o filme, o amor é estúpido e louco. Eu vou mais longe. Com a devida vénia ao MEC, concordo que O Amor é Fodido. Mas é preciso separar do que escrevi atrás. Se for de facto amor, será fodido, e assim até percebo que se aja de forma estúpida. Também eu o farei! O que não me cabe mesmo na cabeça é beber por palhinhas…

Gonçalo Fortes