Et tu, Brute?

Por esta é que eu não estava à espera. Mas a vida é mesmo assim, apanha-nos desprevenidos. Tal como um agarrado em heroína não está à espera de ter de fazer bicos para pagar o vício. E nada me poderia preparar para o inesperado daquele dia. Acordei de manhã, mas já era tarde. Tomei o pequeno-almoço, tornando-se um chá das cinco. E saí para a rua, trabalhar numa sala que era afinal onde já estava.

Em meio a esta realidade invertida, revi-me sentado na sala, numa cadeira amordaçada. De pé a meu lado, uma mulher, que representa aqui todas as mulheres. Ao pescoço, uma corrente acabada no círculo de Marte. Todos os homens. O Povo.

Estava um bocado azul e bufava. Eu, não a mulher. Achando que era da mordaça,  ela decide soltar-me. Era então chegada a altura de estourar uma veia na cabeça… Gritei-lhe Mentiroso! Sou um mentiroso! numa ovulação verborreica de periodicidade diária, apesar de isto se passar tudo num dia só.

Não és nada. Porquê?, perguntou ela.

Porque digo coisas que não cumpro. Prometo prometo prometo e depois mudo de ideias. Sou um mentiroso… Porque estou sempre a imaginar novas definições de sodomia para aplicar ao Povo, quando este espera que eu seja mimoso e só faça conchinha.

Neste momento, ela toca-me no ombro e diz-me Acalma-te! Não é nada assim… Aquele toque faz-me desejá-la por inteiro. Excepto o fio ao pescoço. Faz-me querer escorrer as mãos pelo corpo dela, e tocá-la, e cheirá-la, e… Perdão! Por momentos deslizei para outra realidade, em que tenho 15 anos e estou num concerto da Ana Malhoa. Isto das realidades em cascata é complicado de gerir. Mas não me abandonem ainda. Há método na minha loucura e não envolve tomar medicamentos com as letras Z ou X no nome. Continua ela:

Porque todos os dias são feitos de decisões. A existência é isso. Mediante os eventos de cada dia, fazemos escolhas e caminhamos. Se te enganaste no caminho, não podes continuar na mesma direcção por mais 3 anos e 364 ou 365 dias, dependendo se o ano é bissexto. Tens de te ajustar. É assim que nós vivemos todos os dias e é natural que tu também tenhas de o fazer.

Nós?

Sim, nós! Porque tu és um de nós e nós somos tu. Somos a polis. E apesar de planearmos, adaptamo-nos. E somos sensatos e informados e não exigimos obediência cega a conjunturas que são agora mutantes. Compreendemos-te. Se te não te adaptas, ficas à deriva. E as nossas vidas não são chance, são xadrez.

Mas se sou um de vocês, porque é que me aprisionas?

Tu és livre de ir. Sempre foste. Tal como nós, de fazer escolhas e perceber as dos outros.

Olho em volta e apercebo-me da montra da loja de móveis. A cadeira está fora do sítio, decido arrumá-la. Quando me viro, ela já não está. Vejo-a então espe(a)lhada em todas as pessoas que passam lá fora. É natural e às vezes obrigatório mudar de ideias, pensei. Isso não as torna erradas. E quando me chamarem mentiroso eu vou responder: oh minha senhora, eu não sou político! Eu só minto quando digo continua, não pares, eu aviso antes!

 

Gonçalo Fortes

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