Shell shock

O corpo deixou de me respeitar. Começou pela função urinária. Essa não precisou de contacto físico, bastou a desordem dos fuzis e os gritos dos homens. Por esta altura o resto ainda se movia. O diktat da sobrevivência forçou o correr das pernas e o espremer do gatilho que os dedos faziam por instinto mostrava que as mãos ainda lá estavam. À minha volta mexiam-se também os restantes deste teatro. Mal sabiam que seria por pouco tempo…

Começa sempre com uma carga machista. Ainda há moral no espírito, álcool na camaradagem e fausto no corpo. É um ímpeto que será lavado em sangue. Dos três, só o álcool irá manter-se, por sua vez sustentando o moral. Mas também este será desperdiçado no corpos que tombam. Inimigos ou aliados, todos o bebem, só não do mesmo cálice. E todos o derramam… Correm por entre os blindados, mas não o são eles próprios. Os pesados ficam para trás. Por cansaço, os da gordura. Por distância, os artilheiros. Peso igual, ataques diferentes. Asas de ferro fazem sombra cá em baixo, largando Napalm B(abel) e sabendo que algo vai mal quando conseguimos cheirar a nossa própria carne. Por esta altura ainda se mexiam os restantes deste teatro. E eu com eles…

Agora já não. A minha perna está num ângulo esquisito, não me lembro de alguma vez o ter feito. Mas a dor relembra-me uma e outra vez que ela existe. A outra, a esquerda, também. E faz mais ou menos o mesmo ângulo… Mas existe a três metros de mim e a distância que nos separa faz-me perceber porque já não me respeita. Enquanto repito a filosófica questão “Porque estou aqui?“, oiço os assobios. São diferentes dos que se costumam soltar às moças. Estes são monótonos, pequenos silvos na bisga, que me rasam a cabeça. Os que não se cravam na árvore que me serve de apoio às costas são mais ou menos assim: rasou, não rasou, mais longe, rasou, perto, mais perto, rasou, raspão… Raspão! Um olho.

Antes de perder a perna, perdi a espingarda. Mas já sem a mão direita, enterrei uma baioneta no coto que era braço. Mais dor não me fez diferença e não queria ficar indefeso. Mais indefeso… Já dizia o saudoso Sargento Santos “Só custa até doer. Em doendo dói sempre!“. Digo saudoso, porque acho que era ele caído ali atrás. A mão esquerda dispara grosseiramente a pistola pessoal, num último esforço de bravo-louco-ura. As munições são poucas, mas suficientes para causar o sobre-aquecimento. Não é quentinho confortável, é explosivo! E lá se vão a pistola, a mão esquerda e a baioneta, cravada no peito deste cabrão… pessoa… pessoa que me tenta matar… animal… matar ou morrer… cabrão, pessoa, eu?

A moral é interrompida pelo som abafado de algo que cai no pasto. E é nesta altura que o meu abdómen se demonstra um valente, um bravo do pelotão. Numa tentativa de me salvar a vida, coloca-se, de salto, entre mim e uma granada à qual já retiraram a cavilha. Acho que vai ser fácil para os médicos extraírem agora a bala que trazia alojada no pâncreas…

Pela descrição acima, é bom de ver que deveria estar morto. Mas não, safei-me. Acabei apenas numa cadeira de rodas que suporta uma algália, controlada pela boca desfigurada e com noites de pouco sono e muitos ainda tiros… Tive sorte, agora posso jogar bócia. Hooah!

Gonçalo Fortes



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