Restauração da Independência

Desgastado, desorientado, o poeta imortal perdeu a escrita. Enfim a loucura, pensou. Mas não, essa já estava há mais tempo, os moinhos alimentavam as suas palavras, Dulcineia. Não perdeu os sonhos, felizmente, que esses têm rosa-de-ventos e sabem sempre onde estão.

O que é a vida?, perguntou à criança e esta ao verme, num retorno ao nada.

É aquele enquanto, enquanto não nos enchem a boca de terra. É uma realidade quebrada e remendada e quebrada e remendada e quebrada e remendada e quebrada e remendada e quebrada e remendada (suspiro)… como um coração que foi ferido. Porque é assim o de um poeta. Não para bater, mas para cuspir tinta para o ar, caindo-lhe nos olhos. É quando cego que os dedos se tornam papel. E vomita a sopa, de letras manchadas de sentimento.

É a entrega. Aquela, a absoluta, que nos empurra vermelho para as veias, para o consumir logo após. E o ciclo repete-se… A mancha-sangue-vida, nos lábios servida, sentida como um veneno, mas só porque se espalha e a analogia é boa. Forte, arrasta o rasto, a marca que veio e está por vir. Afunda às mãos, ao ventre nú que é cheirado, porque é também perfumado, aos ossos, para depois lhes sacudir o pó. E ao respirar, o existir sem saber, excepto quando é espirro.

A vida é tudo de uma vez, toda de uma vez. Não é para bebericar.

O poeta, mortal agora, acertou o desnorte. E mãos quentes numa noite fria, escreveu.

Gonçalo Fortes

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