Monthly Archives: Janeiro 2012

E lá no fundo, a esperança

Desconfio sempre de uma mulher com uma grande mala a tiracolo. Sinto que existe uma relação entre o tamanho da mala e a bagagem emocional. E a não ser que seja uma versão moderna do Sport Billy, substituindo as raquetes e bolas de futebol por psicopatologias e traumas emocionais, o tamanho, aqui, interessa. Curiosamente, para aquilo que ocupa espaço físico, os objectos pessoais, esta regra é ignorada. Onde quer que se esteja, seja o que for que se precise, a mala tem. Malão ou pochette, conseguem empanturrá-la com tudo e mais umas botas. Literal, às vezes! Mas anda tudo lá dentro aos trambolhões promíscuos, e o emocional e o material começam a criar ligações covalentes. A mala e o seu conteúdo começam a definir a mulher, são uma extensão dela própria. Por exemplo:

Batom Caderno Espelho Lenços Botas
A rapariga insegura  Será que estou bonita?  Não tenho nada para escrever, não sou interessante.  Porque é que nasci tão feia?  Só me apetece chorar… Aposto que não me servem.
A rapariga ambientalista  Será que foi testado em animais?  Só uso papel reciclado.  Ainda provoco um incêndio!  Lenço ranhoso: papelão ou lixo orgânico? Não uso pele de animais!
A rapariga católica  Deus me livre de usar essas coisas. A única coisa que leio é a Bíblia.  A minha alma é imortal e pertence ao Senhor. Isto é só um reflexo desfocado.  Santinho!  Que se lixe o Alcorão! São tão giras, meu Deus, que até invoquei o nome do Senhor em vão.
A rapariga feminista Não preciso dessas merdas para me sentir mulher.  É demasiado pequeno, não dá para fazer cartazes de manifestações.  Que se foda esse conceito fascista da beleza! Todas as mulheres são bonitas. Todas, ouviste?  Achas que só por ser mulher tenho de andar sempre a chorar, é?  Já disse que não preciso dessas merdas para me sentir mulher!
A rapariga obsessiva-compulsiva Será que pintei bem os lábios? Será? Será? Eu não tenho CDO eu não tenho CDO eu não tenho CDO. E CDO é OCD, mas  por ordem alfabética. Não. Não pintei bem. Está esborratado! Vou pintar tudo outra vez. Ficou mal! Vou limpar. E limpar. E limpar. E vou pintar outra vez!  Aquilo é uma mancha?
A rapariga narcisista  Fogo, sou mesmo gira! Caraças, sou mesmo gira! Uau! Gira, gira, gira! Caramba! Sou tão gira! Fogo! Caraças! Uau! Caramba! Sou cá uma gira!

Antes que isto comece a parecer um livro do Stieg Larsson ou que me acusem de machismo, afianço desde já que também não penso boas coisas de homens que usam mala. Um homem tem de ter mobilidade. Tem de estar livre para agarrar numa mulher de uma forma que a faça sentir-se mulher. Com uma mão apenas, a outra serve para lhe atirar a mala o mais longe possível.

São como que pequenas Caixas de Pandora. Só que, ao contrário da original, no fundo destas não resta a esperança. Só uns OB ou Tampax…

 

Gonçalo Fortes

 

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Emmanuelle revisitada

Iria acontecer, cedo ou tarde. Escrever sobre o amor. É escrita obrigatória e nem sequer é preciso estar-se enamorado.

O incontornável amor. Com que as jovens adolescentes sonham. Contos de fadas e príncipes encantados. A eterna espera pelo rapaz perfeito para uma curta primeira vez, sexo a que chamam fazer amor. Um breve carinho em cadência lenta, numa cama cor-de-rosa. Até que acontece…

O incontornável amor. Pelo qual as mulheres de 30 anos desesperam. A perfeição deu lugar à baixa estima. O medo da solidão sustenta as tentativas fugazes, uma e outra noite. O sexo, agora bem nomeado, é por impulso. É por gana, como se quer, por experiência, como se sabe. Urros e suores apoiados em quatro patas, numa constante procura por um príncipe já diminuído…

O incontornável amor. O qual as senhoras de 40 anos relembram. A líbido baixou e as rugas aumentaram. O estigma social afasta o jovem apetecido e as memórias de tempos passados chegam para a excitação. Que por sua vez, chega para a masturbação, príncipe a pilhas AAA…

Harley sempre foi uma mulher diferente. Não sonhava na adolescência. Tinha! Fazendo jus ao nome, fornicava como um coelho toda a equipa de futebol da escola. Jovens viris de membros pulsantes que a penetravam uma e outra vez. Aos 30 não desesperava. Jogava! Amor só o próprio, e com ele castigava os homens. Era fugaz, sim, mas porque queria, e não por procurar sem nunca encontrar. Porque o objecto do seu desejo era cíclico. O prazer pelo prazer. Homens varões de constantes vontades carnais que caíam a seus saltos altos, uns por rejeição humilhante, outros por exaustão sexual. Aos 40 não relembrava. Agia! A genitália máscula gosta de ser maltratada e ao longo dos anos todos se mantiveram por perto, a princesa aqui é ela. Todos a queriam,  e ela, insaciável, soube abusar do poder, deles, e do príncipe a pilhas AAA. Para as outras era consolo, para ela, complemento.

Comportamento que mantém aos 50. Executiva de topo, o estatuto profissional e a hierarquia social sustentaram-lhe a plenipotência adquirida. Veio de uma família humilde e subiu a pulso. O pai, pastor de aluguer, môral de gado alheio. A mãe aproveitava as lides de doméstica para exportar para fora de casa. A memória mais vívida – e mais odiada – que tem dela é neste cenário de suspiros e goma passados a ferro. A segunda memória vivaça – e já não odiada – era daquele livro que libertava a dona de casa das quatro paredes. Aquele livro de sonhos eróticos que a fazia feliz enquanto esfregava os tachos. Harley tinha 10 anos quando ela morreu, e o livro foi o único pertence materno que guardou. Jurou que nunca iria ser o que a mãe foi. Jurou que iria ser a mulher daquele livro. As rugas pouparam-na e as pernas torneadas ainda usam os mesmos saltos. Saia travada e gravata curta, óculos rubicundos, cabelo puxado para trás com dor. Tesão instantânea!

Para todos, excepto Quinn, o jovem carteiro. Um rapaz a meio dos 20, alto e moreno, ombros largos e sorriso rasgado. Usa calças justas, herança dos seus tempos de rockabilly, o que lhe salienta o órgão nos entremeios. Harley olha sempre, e sente-o nos entrefolhos. Deseja-o! Quer, tal como Neruda, ensiná-lo a gostar… Mas não de poesia. Quer reencaminhar uma carta para casa e abrir a porta a Quinn quando este tocar duas vezes. Usando apenas lingerie, arrastá-lo à força para dentro e arrancar-lhe a roupa do corpo. Percorrer-lhe o peito com lábios e dentes e ir descendo, sempre descendo, até encontrar. Saborear com prazer o falo de Quinn enquanto se toca, aumentando a excitação de ambos. Quando prontos, irá guiá-lo com jeitinho até ao cálice húmido que já está preparado para o receber. E receber. E receber. Uma e outra vez, as coxas esbarram de impulsão, enquanto lhe crava as unhas impecavelmente pintadas nas costas. Derramado o líquido da vida, que a ambos renova, regressam à realidade. O boné de Quinn nunca caíu!

Tesão instantânea! Mas Quinn tem medo dela e nunca se aproxima. Um medo que não é medo, que é aquela ansiedade por também desejar. Ir entregar-lhe um telegrama no escritório, a portas fechadas. Enquanto lho lê em voz alta, interrompe-se e diz-lhe que a quer possuir. E possui, atirando-a de frente para a secretária e dobrando-a. A saia sobe e as cuecas descem. Sobem também o pene de um e a líbido de dois. Enquanto a penetra por trás, aperta-lhe os seios, dor que a faz gemer de prazer. E querer mais. E mais. Até ter tudo. Até ele lho dar todo. Mas Quinn é jovem, tem medo. Um medo que não é medo, que é aquela ansiedade por também desejar. Infelizmente, também o impede de agir e nunca saberá que o desejo é mútuo.

Esta inacção faz Harley sonhar, desesperar e relembrar. 20, 30, 40! É hora de queimar o livro e procurar o amor. Há muito para ensinar a Quinn!

 

Gonçalo Fortes

 


Zen e a Arte da Necromancia

O caldeiro já ferve e a velha verruga atira as ervas lá para dentro. Mexe bem. Empurra a colher no sentido contrário aos ponteiros do relógio, estas coisas funcionam sempre melhor quando são contra-natura. Enquanto deixa a mistura engrossar, repouso de ambas, acaricia uma foto e entoa cânticos. É a hora que ninguém desconfia, os lobos acabam de uivar e as minhocas ainda escavam.

No outro lado, encostada ao muro do cemitério, uma lápide inscreve-se “Querido marido”. É sobre esta que voltam ao mundo dos vivos. Partem pela cintura, dobradiças de carne humana, levantando o peito num folgo de sofrimento. Não sabem como foram ali parar. A última memória é daquela festa após a qual nunca deviam ter conduzido…

A velha deixou de ser respeitada há muito tempo. Tempo suficiente para que lhe chamem bruxa. A raposia da idade e os trajes pretos encostam as crianças à parede quando ela passa. Já o corpo, velho e enrugado, não foge ao calhau que sai da fisga. A distância traz coragem à maldade e a manha não tem idade específica, ali atrás é que pareceu exclusiva dos velhos. Acto reflexo, suja a mão no sangue que escorre da cabeça. Há-de ir parar ao caldeiro mais tarde, é ingrediente proibido e profano.

Os olhos estão a habituar-se à luz e a cabeça, cheia de terra e ervas, grita a sua existência. Olham em redor, um pouco em pânico pelo local em que se encontram, começando a perceber. Quanto tempo terá passado? – pensam – Quanto tempo de não-existência? E como é que estamos aqui agora? Os fatos, rasgados e sujos e um sapato que se dissolveu. As unhas, negras, e dos dentes, menos um. As horas mortas explicarão o degredo, porque o tempo, quando passa, gasta até à lisura.

A foto da velha senhora, cortesia que já não lhe chamam, tem a mesma inscrição do mármore: “Querido marido”. A ligação entre elas existe e sustenta os cânticos da velha. O sal de uma lágrima, diz a receita, o que ela munge com facilidade. Era amor quando ele era vivo, é amor que ela quer ter de volta. Mas são dois estranhos que desterram agora o sono na tumba certa. Algo começa a não fazer sentido!

Começam  a levantar-se, mas o equilíbrio não ajuda. Já outros se mexem em seu redor, também. Tentam perguntar algo, mas os vivos não toleram o que não compreendem e fogem o mais rápido que podem. Confusos por voltar a respirar, amparam-se numa cruz próxima…

Cruz igual à do terço que a velha tem na mão. Não há aqui rituais pagãos nem mitos teutónicos. O caldo verde para o almoço está pronto. É parar de rezar e o que está morto não volta.

Quanto ao mortos-vivos:

Foda-se, que ressaca, parece que fui enrabado por Deus! 

Nem me digas nada, pá… Como é que viemos aqui parar?

Não sei… Festa rija! Mas vamos embora, rápido. Tens um cigarro?

 

Gonçalo Fortes

 


Tubuladura ou O poderio do mulherio

Mind the gap, diz a voz do metropolitano. Em inglês chama-se tube, mas não são as questões semânticas que me enchem o pensar. É aquela voz… É a mulher por detrás daquela voz. Take care of your belongings, diz ela. E eu, básico instinto, passo as mãos pelo corpo, tocando-me. Dominatrix ius imperii! Em seguida, cala-se. Não há chicote, nem sequer alguma vez a vi. Mas esta ausência, este jogo de escondidas castiga-me mais que qualquer chibatada.

Fico a imaginá-la: uma bela vista oriental, de cabelos ruivos e cheiro a laranjeiras. Corre por entre campos de olivais, parando lá no alto, com os moinhos por trás, para tomar novo fôlego. Nua de calor, refresca-se no arroio restaurador que cruza o mapa. Um anjo!

A escrita idílica não tem lugar nesta toca, foi só um momento de imaginação encadeada que despachou logo uma dúzia de estações. Felizmente estava nua! Mas volte-se à sedução da carne, nesta dança a dois:

Paciente, sabe jogar o jogo. Não respeita o interregno A3, mas as viagens aqui são curtas e tudo se passa muito mais rápido. O timing é perfeito: vou já eu distraído a pensar se serei urso ou não, quando ela me assalta o ouvido. Devido à greve geral, informamos que amanhã o metro se encontrará encerrado. Sabendo que estas coisas vivem de oportunidade e percebendo que não a irei ver no dia seguinte, decido procurá-la nesse instante. Num sussurro, indica-me o caminho: Próxima estação, Baixa-Chiado, em tom de convite para encontro. E eu, pau, saio e espero… E espero… E espero… Ao 4º comboio ouço-a passar, num high tease, cancan burlesco que me leva a apanhar o próximo para apenas mais uma verde.

Acompanhou-me do Técnico ao Cais do Sodré, passando pelo Intendente. Sabe o que tem e sabe usá-lo. É esse o poderio do mulherio. E todas cobram por isso…

Mas esta é puta, de certeza!

 

Gonçalo Fortes