Zen e a Arte da Necromancia

O caldeiro já ferve e a velha verruga atira as ervas lá para dentro. Mexe bem. Empurra a colher no sentido contrário aos ponteiros do relógio, estas coisas funcionam sempre melhor quando são contra-natura. Enquanto deixa a mistura engrossar, repouso de ambas, acaricia uma foto e entoa cânticos. É a hora que ninguém desconfia, os lobos acabam de uivar e as minhocas ainda escavam.

No outro lado, encostada ao muro do cemitério, uma lápide inscreve-se “Querido marido”. É sobre esta que voltam ao mundo dos vivos. Partem pela cintura, dobradiças de carne humana, levantando o peito num folgo de sofrimento. Não sabem como foram ali parar. A última memória é daquela festa após a qual nunca deviam ter conduzido…

A velha deixou de ser respeitada há muito tempo. Tempo suficiente para que lhe chamem bruxa. A raposia da idade e os trajes pretos encostam as crianças à parede quando ela passa. Já o corpo, velho e enrugado, não foge ao calhau que sai da fisga. A distância traz coragem à maldade e a manha não tem idade específica, ali atrás é que pareceu exclusiva dos velhos. Acto reflexo, suja a mão no sangue que escorre da cabeça. Há-de ir parar ao caldeiro mais tarde, é ingrediente proibido e profano.

Os olhos estão a habituar-se à luz e a cabeça, cheia de terra e ervas, grita a sua existência. Olham em redor, um pouco em pânico pelo local em que se encontram, começando a perceber. Quanto tempo terá passado? – pensam – Quanto tempo de não-existência? E como é que estamos aqui agora? Os fatos, rasgados e sujos e um sapato que se dissolveu. As unhas, negras, e dos dentes, menos um. As horas mortas explicarão o degredo, porque o tempo, quando passa, gasta até à lisura.

A foto da velha senhora, cortesia que já não lhe chamam, tem a mesma inscrição do mármore: “Querido marido”. A ligação entre elas existe e sustenta os cânticos da velha. O sal de uma lágrima, diz a receita, o que ela munge com facilidade. Era amor quando ele era vivo, é amor que ela quer ter de volta. Mas são dois estranhos que desterram agora o sono na tumba certa. Algo começa a não fazer sentido!

Começam  a levantar-se, mas o equilíbrio não ajuda. Já outros se mexem em seu redor, também. Tentam perguntar algo, mas os vivos não toleram o que não compreendem e fogem o mais rápido que podem. Confusos por voltar a respirar, amparam-se numa cruz próxima…

Cruz igual à do terço que a velha tem na mão. Não há aqui rituais pagãos nem mitos teutónicos. O caldo verde para o almoço está pronto. É parar de rezar e o que está morto não volta.

Quanto ao mortos-vivos:

Foda-se, que ressaca, parece que fui enrabado por Deus! 

Nem me digas nada, pá… Como é que viemos aqui parar?

Não sei… Festa rija! Mas vamos embora, rápido. Tens um cigarro?

 

Gonçalo Fortes

 

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