Emmanuelle revisitada

Iria acontecer, cedo ou tarde. Escrever sobre o amor. É escrita obrigatória e nem sequer é preciso estar-se enamorado.

O incontornável amor. Com que as jovens adolescentes sonham. Contos de fadas e príncipes encantados. A eterna espera pelo rapaz perfeito para uma curta primeira vez, sexo a que chamam fazer amor. Um breve carinho em cadência lenta, numa cama cor-de-rosa. Até que acontece…

O incontornável amor. Pelo qual as mulheres de 30 anos desesperam. A perfeição deu lugar à baixa estima. O medo da solidão sustenta as tentativas fugazes, uma e outra noite. O sexo, agora bem nomeado, é por impulso. É por gana, como se quer, por experiência, como se sabe. Urros e suores apoiados em quatro patas, numa constante procura por um príncipe já diminuído…

O incontornável amor. O qual as senhoras de 40 anos relembram. A líbido baixou e as rugas aumentaram. O estigma social afasta o jovem apetecido e as memórias de tempos passados chegam para a excitação. Que por sua vez, chega para a masturbação, príncipe a pilhas AAA…

Harley sempre foi uma mulher diferente. Não sonhava na adolescência. Tinha! Fazendo jus ao nome, fornicava como um coelho toda a equipa de futebol da escola. Jovens viris de membros pulsantes que a penetravam uma e outra vez. Aos 30 não desesperava. Jogava! Amor só o próprio, e com ele castigava os homens. Era fugaz, sim, mas porque queria, e não por procurar sem nunca encontrar. Porque o objecto do seu desejo era cíclico. O prazer pelo prazer. Homens varões de constantes vontades carnais que caíam a seus saltos altos, uns por rejeição humilhante, outros por exaustão sexual. Aos 40 não relembrava. Agia! A genitália máscula gosta de ser maltratada e ao longo dos anos todos se mantiveram por perto, a princesa aqui é ela. Todos a queriam,  e ela, insaciável, soube abusar do poder, deles, e do príncipe a pilhas AAA. Para as outras era consolo, para ela, complemento.

Comportamento que mantém aos 50. Executiva de topo, o estatuto profissional e a hierarquia social sustentaram-lhe a plenipotência adquirida. Veio de uma família humilde e subiu a pulso. O pai, pastor de aluguer, môral de gado alheio. A mãe aproveitava as lides de doméstica para exportar para fora de casa. A memória mais vívida – e mais odiada – que tem dela é neste cenário de suspiros e goma passados a ferro. A segunda memória vivaça – e já não odiada – era daquele livro que libertava a dona de casa das quatro paredes. Aquele livro de sonhos eróticos que a fazia feliz enquanto esfregava os tachos. Harley tinha 10 anos quando ela morreu, e o livro foi o único pertence materno que guardou. Jurou que nunca iria ser o que a mãe foi. Jurou que iria ser a mulher daquele livro. As rugas pouparam-na e as pernas torneadas ainda usam os mesmos saltos. Saia travada e gravata curta, óculos rubicundos, cabelo puxado para trás com dor. Tesão instantânea!

Para todos, excepto Quinn, o jovem carteiro. Um rapaz a meio dos 20, alto e moreno, ombros largos e sorriso rasgado. Usa calças justas, herança dos seus tempos de rockabilly, o que lhe salienta o órgão nos entremeios. Harley olha sempre, e sente-o nos entrefolhos. Deseja-o! Quer, tal como Neruda, ensiná-lo a gostar… Mas não de poesia. Quer reencaminhar uma carta para casa e abrir a porta a Quinn quando este tocar duas vezes. Usando apenas lingerie, arrastá-lo à força para dentro e arrancar-lhe a roupa do corpo. Percorrer-lhe o peito com lábios e dentes e ir descendo, sempre descendo, até encontrar. Saborear com prazer o falo de Quinn enquanto se toca, aumentando a excitação de ambos. Quando prontos, irá guiá-lo com jeitinho até ao cálice húmido que já está preparado para o receber. E receber. E receber. Uma e outra vez, as coxas esbarram de impulsão, enquanto lhe crava as unhas impecavelmente pintadas nas costas. Derramado o líquido da vida, que a ambos renova, regressam à realidade. O boné de Quinn nunca caíu!

Tesão instantânea! Mas Quinn tem medo dela e nunca se aproxima. Um medo que não é medo, que é aquela ansiedade por também desejar. Ir entregar-lhe um telegrama no escritório, a portas fechadas. Enquanto lho lê em voz alta, interrompe-se e diz-lhe que a quer possuir. E possui, atirando-a de frente para a secretária e dobrando-a. A saia sobe e as cuecas descem. Sobem também o pene de um e a líbido de dois. Enquanto a penetra por trás, aperta-lhe os seios, dor que a faz gemer de prazer. E querer mais. E mais. Até ter tudo. Até ele lho dar todo. Mas Quinn é jovem, tem medo. Um medo que não é medo, que é aquela ansiedade por também desejar. Infelizmente, também o impede de agir e nunca saberá que o desejo é mútuo.

Esta inacção faz Harley sonhar, desesperar e relembrar. 20, 30, 40! É hora de queimar o livro e procurar o amor. Há muito para ensinar a Quinn!

 

Gonçalo Fortes

 

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