E lá no fundo, a esperança

Desconfio sempre de uma mulher com uma grande mala a tiracolo. Sinto que existe uma relação entre o tamanho da mala e a bagagem emocional. E a não ser que seja uma versão moderna do Sport Billy, substituindo as raquetes e bolas de futebol por psicopatologias e traumas emocionais, o tamanho, aqui, interessa. Curiosamente, para aquilo que ocupa espaço físico, os objectos pessoais, esta regra é ignorada. Onde quer que se esteja, seja o que for que se precise, a mala tem. Malão ou pochette, conseguem empanturrá-la com tudo e mais umas botas. Literal, às vezes! Mas anda tudo lá dentro aos trambolhões promíscuos, e o emocional e o material começam a criar ligações covalentes. A mala e o seu conteúdo começam a definir a mulher, são uma extensão dela própria. Por exemplo:

Batom Caderno Espelho Lenços Botas
A rapariga insegura  Será que estou bonita?  Não tenho nada para escrever, não sou interessante.  Porque é que nasci tão feia?  Só me apetece chorar… Aposto que não me servem.
A rapariga ambientalista  Será que foi testado em animais?  Só uso papel reciclado.  Ainda provoco um incêndio!  Lenço ranhoso: papelão ou lixo orgânico? Não uso pele de animais!
A rapariga católica  Deus me livre de usar essas coisas. A única coisa que leio é a Bíblia.  A minha alma é imortal e pertence ao Senhor. Isto é só um reflexo desfocado.  Santinho!  Que se lixe o Alcorão! São tão giras, meu Deus, que até invoquei o nome do Senhor em vão.
A rapariga feminista Não preciso dessas merdas para me sentir mulher.  É demasiado pequeno, não dá para fazer cartazes de manifestações.  Que se foda esse conceito fascista da beleza! Todas as mulheres são bonitas. Todas, ouviste?  Achas que só por ser mulher tenho de andar sempre a chorar, é?  Já disse que não preciso dessas merdas para me sentir mulher!
A rapariga obsessiva-compulsiva Será que pintei bem os lábios? Será? Será? Eu não tenho CDO eu não tenho CDO eu não tenho CDO. E CDO é OCD, mas  por ordem alfabética. Não. Não pintei bem. Está esborratado! Vou pintar tudo outra vez. Ficou mal! Vou limpar. E limpar. E limpar. E vou pintar outra vez!  Aquilo é uma mancha?
A rapariga narcisista  Fogo, sou mesmo gira! Caraças, sou mesmo gira! Uau! Gira, gira, gira! Caramba! Sou tão gira! Fogo! Caraças! Uau! Caramba! Sou cá uma gira!

Antes que isto comece a parecer um livro do Stieg Larsson ou que me acusem de machismo, afianço desde já que também não penso boas coisas de homens que usam mala. Um homem tem de ter mobilidade. Tem de estar livre para agarrar numa mulher de uma forma que a faça sentir-se mulher. Com uma mão apenas, a outra serve para lhe atirar a mala o mais longe possível.

São como que pequenas Caixas de Pandora. Só que, ao contrário da original, no fundo destas não resta a esperança. Só uns OB ou Tampax…

 

Gonçalo Fortes

 

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