Monthly Archives: Fevereiro 2012

1/2 segundo

Ouviu um “SPACK” seco!

Virou-se por instinto, à procura da fonte sonora. É ressonância mórfica que vai além da espécie, a reacção. Nesses 180 graus, rotação lenta, viu a vida passar-lhe à frente:

Cresceu como criança mediana, catequese e reguadas por más notas. Não brilhou em nenhum desporto nem aprendeu ouvido musical. Em casa, gritos e brigas, dificuldades financeiras, choro e culpa. Culpa dele, por ter nascido. Passou pela adolescência tal como pela infância, invisível ao que é bom, acessível ao que é mau. Maus tratos físicos dos seus pares de género e desprezo psicológico pelo sexo contrário, também a submissão faz parte da consciência colectiva a que chamamos instinto. Autómato das 7h às 18h, amaldiçoa todas as manhãs o acordar. Acordar ao lado do já fétido hálito da única mulher que conheceu. Não escolheu, mas teve sorte! Deixou-se engordar com ela, ainda antes do terceiro filho ser parido. E esqueceu todo o passado em casa dos pais, repetindo as relações forjadas no ódio e acrescentando-lhes sofás e telenovelas. Mas também, o amor não é uma emoção. É um constructo abstracto atribuído a um imperativo biológico que não é inteiramente compreendido.

Os vícios eram literais, acepção da palavra que é defeito. Nunca tiveram prazer social e deixaram de ter sabor. Até porque o corpo se ressentiu e a ordem de proibição conjugal foi mais assertiva que a médica. Era a única vida dupla que levava, o cigarro na pausa do trabalho ou o copo de três pela manhã. Duplicidade malsucedida, sendo sempre descoberto pelas parecenças do hálito, apesar da troca de saliva já não existir há muitos anos. Um morrer lentamente que o impedia de morrer lentamente…

Por isso continua a tentar. Uma esperança de que o próximo cigarro o transforme num super-espião como nos filmes, ou um adolescente a partir o coração na rua, preparando-se para quando precisar realmente dele. E quando encurralado, responder à pergunta “Preferes uma bala na cabeça ou cinco no peito e sangrar até à morte?” com um sorriso displicente e uma outra pergunta: “São essas as minhas únicas opções?”.

Foi um “SPACK” seco a última coisa que ouviu. Não escolheu, mas teve sorte. O buraco na janela era minúsculo, uma moeda de 1 cêntimo não caberia lá. Um tiro perdido mas limpo, apenas denunciado pelo vidro que se part………………

Gonçalo Fortes

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