Monthly Archives: Março 2012

Já visto

Acabo de ter um déjà vu. Pena que não tinha mamas!

 

Gonçalo Fortes

 

 

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A pira de sutiãs

Nasceu nos sessentas e foi literalmente marcada pelo seu femíneo significado. Colo nos braços de sua mãe, passaram por um grupo de mulheres que protestava em torno de uma fogueira: Não somos objectos de sexo, gritavam umas, Não nos transformem em eunucos, clamavam outras.  Não se percebia bem o que queriam. Mas também, quem é que percebe?

Quando a mãe se aproximou demasiado, estalou de supetão uma faísca da fogueira. Um bocado de plástico derretido, uma presilha de roupa que atingiu Maria mesmo em cheio na testa, queimando uma cicatriz. Uma cicatriz ardente em forma de teta, que a fez chorar nesse momento e em muitos anos vindouros. Todos lhe chamavam Maria Farfalha, A Rapariga Que Sobreviveu.

Sentia-se feia e infeliz. As raparigas que a rodeavam eram bonitas e desejadas. Mas ela não. E nesses momentos, o ardor da cicatriz voltava. Com a dor e a angústia, baixava a cabeça, formando um triângulo mamário que afectava os homens em redor. Largavam tudo e corriam para ela, queriam possuí-la. Mas Maria pensava que a gozavam e fugia, sem perceber o seu papel de líder nessa revolução. Soube-o por acidente, alguns anos mais tarde. A televisão estava ligada e passava um filme de acção no qual uma mulher oferecia o seu peito a um homem, sendo rejeitada por este. Maria reconheceu-se naquele peito incomum, e assim começou o seu desafio total: livrar as mulheres do jugo d’Aquele Cujo Pénis Está Sempre Levantado!

Decidiu romper com todas as convenções de beleza feminal. Honrando a alcunha que sempre lhe deram, deixou de se depilar. Camisas aos quadrados, cabelo rapado, calças de ganga largas e botas de lenhador, saía à rua com a intenção de rebaixar egos masculinos. Assim que via um homem, assumia a sua posição de poder e fornicava com ele até à exaustão. Às vezes não dava muito jeito, porque a magia só funcionava com o queixo encostado ao pescoço. Mas assim que terminavam, libertava-o do transe, forçava-o a olhar para as suas axilas e a aperceber-se do que tinha acabado de acontecer. Com esta acção perversa, quebrou as vontades libidinosas dos homens, liderando a comunidade feminil para a sua libertação.

Mas se existe uma verdade universal é a de que os homens não conseguem manter a pilinha dentro das calcinhas durante muito tempo. E a vingança começou a ser planeada…

Envolvendo um cego, um gay e tiras depilatórias, emboscaram e capturaram Maria. Sendo o trauma mais marcado a visão da pilosidade, deram uso às tiras, julgando que isso iria deixar Maria incapaz. Mas estavam enganados e apenas a enfureceram mais, não houve epidídimo que não secasse nos meses seguintes. E foi numa dessas noites que o segredo foi descoberto. Por cansaço, o queixo de Maria deixou de tocar o pescoço por um segundo e a vítima reparou no brilho que saltava da cicatriz.

Com esta informação em sua posse, a segunda tentativa dos homens envolveu um disfuncional eréctil e um cirurgião plástico, que capturaram Maria e removeram a cicatriz da sua testa, quebrando o triângulo das elevações peitorais. Mas tal como as guerreiras Amazonas cortavam a teta esquerda para serem mais hábeis com as armas, também Maria estava destinada à glória. Destinada a consolidar o domínio feminino neste planeta.

E foi nesse momento que percebeu que o poder provinha de um outro triângulo. O triângulo do poder absoluto. Fica uns palmos mais abaixo do anterior. Avada Kedavra!

 

Gonçalo Fortes

 


Debutando

Já ando por aqui há algum tempo e sempre com uma rudeza blasé, sem me apresentar. Faço-o agora sem mais delongas, atirado na mesma num bocejo displicente: as páginas Sobre o Alfa e Sobre o Evangelho são já território marcado de facto. Procurem os pingos amarelos.

 

Gonçalo Fortes


Grão Filosofal

Desculpa, Tó, mas não é o sonho que comanda a vida. É o café!

 

Gonçalo Fortes


Atlas Shrugged

Não fora logo para casa. Telefonara a avisar já vou, mas mentira. Teria mentido ainda que houvesse alguém para atender. Mas virara por certo no sítio errado e não se corrigira no rumo. Mudar de rumo? É preciso vento. Rodeado de paredes, vento era luxo que não tinha agora. Deixou-se ir pelas ruas, um andar que mais parecia arrasto. Porque o peso existe, agarrado às correntes. E assim, cada vez menor, se dissolveu na calçada.

Não fora logo para casa. Há quem lhe chame imóveis e isso diz logo sobre o peso. Diz mais que o telefone, sem ninguém do lado de lá. Ninguém que espere, mas também ninguém que prenda. Não quer grilhões nos sonhos. São como o vento, não por serem etéreos, mas por não existirem agora. Sentia-se intratável, intolerante e intransigente. As ruas, apesar de estreitas, davam uma certa sensação de liberdade. Deixavam pensar.

Lamentou erros do passado e formulou desculpas para o presente. Correu. Não como quem foge de alguém, mas como quem persegue algo. E carregou em ombros todo o futuro…

Sustentar o globo custa. Mas a dor não dura sempre. Diminui para metade. Mais ou menos na mesma altura em que a coluna se parte!

 

Gonçalo Fortes