A pira de sutiãs

Nasceu nos sessentas e foi literalmente marcada pelo seu femíneo significado. Colo nos braços de sua mãe, passaram por um grupo de mulheres que protestava em torno de uma fogueira: Não somos objectos de sexo, gritavam umas, Não nos transformem em eunucos, clamavam outras.  Não se percebia bem o que queriam. Mas também, quem é que percebe?

Quando a mãe se aproximou demasiado, estalou de supetão uma faísca da fogueira. Um bocado de plástico derretido, uma presilha de roupa que atingiu Maria mesmo em cheio na testa, queimando uma cicatriz. Uma cicatriz ardente em forma de teta, que a fez chorar nesse momento e em muitos anos vindouros. Todos lhe chamavam Maria Farfalha, A Rapariga Que Sobreviveu.

Sentia-se feia e infeliz. As raparigas que a rodeavam eram bonitas e desejadas. Mas ela não. E nesses momentos, o ardor da cicatriz voltava. Com a dor e a angústia, baixava a cabeça, formando um triângulo mamário que afectava os homens em redor. Largavam tudo e corriam para ela, queriam possuí-la. Mas Maria pensava que a gozavam e fugia, sem perceber o seu papel de líder nessa revolução. Soube-o por acidente, alguns anos mais tarde. A televisão estava ligada e passava um filme de acção no qual uma mulher oferecia o seu peito a um homem, sendo rejeitada por este. Maria reconheceu-se naquele peito incomum, e assim começou o seu desafio total: livrar as mulheres do jugo d’Aquele Cujo Pénis Está Sempre Levantado!

Decidiu romper com todas as convenções de beleza feminal. Honrando a alcunha que sempre lhe deram, deixou de se depilar. Camisas aos quadrados, cabelo rapado, calças de ganga largas e botas de lenhador, saía à rua com a intenção de rebaixar egos masculinos. Assim que via um homem, assumia a sua posição de poder e fornicava com ele até à exaustão. Às vezes não dava muito jeito, porque a magia só funcionava com o queixo encostado ao pescoço. Mas assim que terminavam, libertava-o do transe, forçava-o a olhar para as suas axilas e a aperceber-se do que tinha acabado de acontecer. Com esta acção perversa, quebrou as vontades libidinosas dos homens, liderando a comunidade feminil para a sua libertação.

Mas se existe uma verdade universal é a de que os homens não conseguem manter a pilinha dentro das calcinhas durante muito tempo. E a vingança começou a ser planeada…

Envolvendo um cego, um gay e tiras depilatórias, emboscaram e capturaram Maria. Sendo o trauma mais marcado a visão da pilosidade, deram uso às tiras, julgando que isso iria deixar Maria incapaz. Mas estavam enganados e apenas a enfureceram mais, não houve epidídimo que não secasse nos meses seguintes. E foi numa dessas noites que o segredo foi descoberto. Por cansaço, o queixo de Maria deixou de tocar o pescoço por um segundo e a vítima reparou no brilho que saltava da cicatriz.

Com esta informação em sua posse, a segunda tentativa dos homens envolveu um disfuncional eréctil e um cirurgião plástico, que capturaram Maria e removeram a cicatriz da sua testa, quebrando o triângulo das elevações peitorais. Mas tal como as guerreiras Amazonas cortavam a teta esquerda para serem mais hábeis com as armas, também Maria estava destinada à glória. Destinada a consolidar o domínio feminino neste planeta.

E foi nesse momento que percebeu que o poder provinha de um outro triângulo. O triângulo do poder absoluto. Fica uns palmos mais abaixo do anterior. Avada Kedavra!

 

Gonçalo Fortes

 

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