Monthly Archives: Agosto 2012

Mexican-one night stand-off

Tem o seu quê de estúpido, isto de escrever na terceira pessoa e achar que ninguém acredita que aconteceu. Que se afasta do vivido, e ninguém nota o esfregar da personalidade nas letras. Algumas são mais redondas e não raspam muito. Outras, pedras-pomes da alma, biografia roubada em movimento áspero.

E por isso hoje estória fictícia na primeira pessoa. Só há verdade no eu, com toda a incerteza que esta frase tem…

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. O tecto era estranho ao olhar acabado de abrir. Esquerda direita, pisca e esfrega, onde estou?

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. Largavam perfume entre os lençóis e o tecto alheio, carrossel de noites perdidas. Perfumes diferentes, a que a personalidade dá nome de cheiro. Que também se esfrega na pedra-pomes…

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. A novel estranheza do lugar faz-me querer sair, garotelho perdido em calores encontrados, à procura da corrente do ar. Corrente que liberta dali, que dá respirar.

Eram 3. Que ficaram para trás, pois nem da tarde nem manhã. Essas também ficam para trás, mas deixam sempre a certeza de novo encontro.

Já na rua, gravata no bolso, resposta à voz assertiva que diz:

Estás com a mesma roupa de ontem.

Também tu estarias, se tivesses conhecido a mulher de ontem. Ou as 3…

 

Gonçalo Fortes

 

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