Monthly Archives: Setembro 2012

É casta, eu sei

É com calma e mestria que o faz. Médio e polegar seguram a fivela enquanto o indicador separa o trinco. A outra mão começa a marcar a premissa do que virá a seguir. É no momento em que tudo se solta que ela decide parar e olhá-lo:

Queres que continue?

em voz baixinha e sorriso maroto, daqueles com cara inteira. Olhos negros e pele bronze, num pacote de Oriente. Tendo já a dela e sendo Eu quero!, não esperou pela resposta dele. Num gesto único, acto contínuo, puxou, sempre com a confiança de quem já o fez muitas vezes. Cadência lenta mas firme, o som do couro nos passadores marcou o ritmo que ambos iriam procurar. Era promessa cumprida muito antes de ser feita.

Começou casual. O sorriso era o mesmo de agora e o trajecto foi de aproximação. Quase se cruzaram, mas ele puxou-a pelo cós. Sorriso leva a conversa, conversa leva a copo, copo leva a fuga do grupo. As elucubrações políticas quebraram-lhes o ritmo da noite. Riram menos, brigaram mais, mas a intensidade é sempre a mesma. E nem só de euforia vive a paixão: há toques subtis, segredos nas ligas, olhares furtivos e palavras ambíguas… Explicar o desejo é tarefa complicada, remetida para textos futuros.

Foi este à parte que os deixou sozinhos, que os assuntos estadistas não interessam a todos. E procuraram. Queriam o embate no estágio seguinte: Marx contra Rand, Curie versus Alá, tanta gente já faz uma orgia. Primeiro uma parede, depois uma coluna, water closet pelo meio, até chegar à cama…

O couro, que é pele animal, serve agora para trancar a pele humana. Numa inversão de posições, é já ele quem lho aperta nos pulsos, também como quem sabe o que faz. Sem mais demoras de castidade, interrompe o ritmo e pergunta:

Sentes?

Cinto… Perdão! Sinto.

 

Gonçalo Fortes

 

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Centopeia

Verão Verão, tantas pernas tinhas…

 

Gonçalo Fortes

 

 

 


Cherchez la femme

É a noite, percebes? É a noite que fode tudo. É aquele enquanto, enquanto não paras de pensar mas já paraste de viver. Porque quando a outra metade da cama não está vazia, não paras de viver nunca. Mas quando estendes o braço e só encontras escuridão, esta ganha formas. Infelizmente, não de mamas.

 Procuras calor e só encontras trapo, quente sem alma. Com sorte, encontras uma almofada de penas, almas de mil patos mortos, tem calor e tem forma. Mas não é fricção do corpo nem arcos de mamoplastia.

Outras vezes não estendes o braço. Esvazias a mente e esperas. Susténs o fôlego, queres aspirar um respirar, queres encontrar um suspiro alheio. E contas: 2, 2, 2, 2, 2, 2, 2… Começas a ficar azul quando te apercebes que só sabes contar até par. E em vez de aspirares, deitas tudo cá para fora. É difícil respirar em altitude, os ditosos altos fazem-te perder o sopro. Mas também não encontraste aqui nenhum, a cama está vazia, de bico a bico.

É a noite, percebes? É a noite que fode tudo. É a noite que te faz sentir só e querer ter-te aqui.

Amor é olhar para o peito de uma mulher e ver o coração. Enquanto não inventarem óculos de raios-X, fico-me pela parte de fora.

 

Gonçalo Fortes