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Cadáver esquisito

Para quem não sabe o que é um Cadáver Esquisito, digo apenas que todos o jogámos. Eu jogava muito, especialmente naquelas aulas enfadonhas que eram dadas por professoras enrugadas ou por professores que ainda usavam lenço de assoar. Nas que eram dadas por professoras boazonas, de mini-saia, e que deixavam cair um pau de giz de vez em quando, nessas estava sempre muito atento. Ainda assim, para quem tinha fetiches esquisitos por lenços ranhosos e decidiu prestar atenção às aulas, fica aqui a definição: Cadáver Esquisito (Wikipedia).

Pois bem, eu a Caleidoscópio Maria, dona do antro que é o http://kaleidoscope-caleidoscopio.blogspot.pt/ e a advogada mais sexy da blogosfera, normal in a kinky kind of way, ou kinky in a normal kind of way, nunca me lembro, decidimos arriscar numa colisão de canetas. O resultado foi o expectável:

Zombie Zé não gostava de comer. Sempre assim fora, mesmo antes de morrer  num acidente de automóvel quando era miúdo, em que toda a família ia a caminho do Algarve.  És mesmo esquisitinho, diziam-lhe, quando deixava a comida toda no prato. Oh mãããeee, mas isto de não ter papilas gustativas não ajuda. E a falta de sistema digestivo também estraga tudo. Um gajo come uma maçã e fica a cheirar a podre durante 3 dias!

É aquela coisa do fruto podre que contamina os restantes do cesto. Permanecendo tempo suficiente no mesmo sítio, tudo o que está à volta acaba por apodrecer. E não me venham cá com moralismos! Há que fazer a limpeza ou pagar à mulher-a-dias!

Agora, já crescido, continua a sê-lo. Já não é com a comida que é selectivo, qualquer cérebro marcha, mas sim com as mulheres. E sempre teve um fraco pela mulher-a-dias. Daí recusar-se a limpar o cesto: tinha desculpa para a ver. Era o clichê da empregada sexy: pernas torneadas até à saia rodada, avental que combinava com a renda das ligas, bem dotada e decotada, vermelha de lábios, cabelo e temperatura. A esta, Zombie Zé não queria comer o cérebro, mas sim o corpo. E em todo o esplendor que a utilização mais brejeira da palavra “comer” tem.

Quem diz “comer” diz lambuzar, meter a cara no tacho, esfregar a beiça… à moda da mui distinta nobreza que comia com as mãos e arrotava no fim. Mas eu cá sou mais de lamber os dedos, isso sim digno do mais saboroso… repasto!

No outro dia, numa destas sessões de lambição, fiquei com um dedo na boca. É o que dá ser um cadáver em decomposição. Decomposição com estilo, mas ainda assim… E lá estilo tinha ele. Era um rapaz cuidado: escovava o cabelo todos os dias para tirar os fios soltos, arrancava as crostas e os pedaços de pele morta e até borrifava uma dose extra de desodorizante nos buracos do abdómen. Colocava um fato em cima dos preparos e saía para a rua.

Seria o inverso da Lei de Murphy “Se algo puder correr bem, correrá.” E não teria nada a temer pois desde sempre se achava um homem com pinta. A receita era simples: flor na lapela, olhar confiante, caminhar firme e preservativo no bolso.

Não que precisasse, claro, já se percebeu que não tem fluidos corporais e mais doente que morto não fica. Mas gostava destes hábitos de humanos, desta ligação à vida. Deixava sempre um bocadinho do plástico de fora, à espreita. Sempre achou que a insinuação subtil não era para ele. Curiosamente não tinha muito jeito e afastava sempre as mulheres. Quando era então com Maria, a mulher-a-dias, só conseguia gaguejar, o pobre Zé…

É que a Maria era a Gabriela lá do sítio, uma beleza natural, pura, inocente e com umas curvas dignas de baralhar qualquer GPS! Ao olhar para elas, o pobre Zé via-se perdido e não tinha noção da latitude quanto mais da longitude.  Na verdade, aquilo mais parecia o Triângulo das Bermudas tal era a pressão que exerciam sobre si.

E tal como nesta misteriosa zona do globo, também aqui desapareciam coisas. Porque era chegado o dia em que o Zé perdia a vergonha e soltava toda a gana. O que, por sua vez, iria fazer com que fosse o seu pénis em decomposição a desaparecer dentro de Maria. Tal era a fuçanga latente que, após um movimento de vai, não voltou nada. Ter perdido um dedo na lambição é uma coisa, mas, vivo ou morto, o pénis é o orgulho de um homem, a sua identidade. Zé entrou em pânico:

Pequeno? Rechonchudo? Grande? Médio? Esguio? O que pensaria Maria naquele momento? Nunca pensou que despir-se em frente desta mulher fosse tão difícil. Para ele, o seu pénis era o companheiro de uma vida, o amigo de folias, o confidente de desejos, o solitário prazer a uma mão, o guia de amores e desamores. Maria parecia francamente assustada e intrigada com o que Zé lhe apresentava mas no fundo só pensava que para ela as cobras sempre foram o símbolo do pecado e do interdito e pecar nunca lhe pareceu tão apelativo.

Porque era uma cobra que parecia agora o seu pénis. É a maldição dos mortos-vivos: um gajo armado de katana separa-lhes uma mão do braço e a seguir leva com esta agarrada ao pescoço enquanto se foge do resto do corpo. O que vale é que eles correm devagar. O apêndice agora não era a mão, mas também se mexia sozinho. Maria gemia de prazer, alheia ao facto de que Zé se encontrava na outra ponta da sala, a tentar resolver a situação. Era pecado sim, profano em muitos sentidos. Quando foi com o dedo arrancado, Zé recuperou-o com um assobio. Fez agora o mesmo,  na esperança de que o pénis voltasse.

Assomava-lhe ao pensamento a vergonha de um pénis mole e triste, o que diriam os seus comparsas? Maria era o sonho de qualquer homem e ele havia desperdiçado a sua oportunidade. Que triste sina! Pensava erraticamente na solução mas dispensava o embaraço de uma incursão pelas farmácias e os comprimidos azuis. Rezou por um milagre ou um qualquer encantador de serpentes, um mágico que tirasse da cartola uma bengala firme e bem resolvida,  um picheleiro dotado e competente. Ergueu os olhos e encarou com o seu maior pesadelo.

A janela estava aberta e o pénis tinha desaparecido, o mundo era agora o seu vaginásio. Maria gritava, tinha-se apercebido de tudo. Zé não sabia bem o que fazer, não conseguia pensar. A janela aberta, Maria aos gritos, o vazio entre as pernas, Maria aos gritos, a casa desarrumada porque Maria ali, aos gritos… Zé não conseguia pensar. Rebentou o crâneo a Maria e comeu-lhe o cérebro à dentada.

Não por ser zombie, mas porque o seu próprio tinha fugido pela janela. É o fado de um homem, vivo ou morto…

 

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Bitch or beach?

” – What do you call a woman that sells her body?”

” – Bitch.”

” – And where is the place where you can take a swim?”

” – Between a woman’s thighs?”

 

 


If you look into the heart of darkness, you better have a black heart

Tipicamente, deixo o coração em casa. Tal como também não costumo começar textos com advérbios de modo. Mas são excepções como esta que me fizeram levá-lo naquela noite. Sei ao que vou, sei que não me dá jeito e que vai arranjar problemas, mas saí de casa à pressa. E lá foi ele, no sítio, amparado pela cava e suspenso pela aorta…

E ela soube aproveitar-se disso. O tambor no peito notava-se, era barulho surdo e palpitação invisível. Mas quem também trouxe o seu consegue notar os dos outros. Os que interessam.

O pior é que fiquei sem espaço para guardar a carteira. O enchumaço no bolso das calças não é estético e usá-la na mão não dá jeito nenhum! Ela foi prestável. Notou o meu problema, colocou a mão no meu peito e disse-me Gosto de ti.

Decidi oferecer-lho. A carteira ainda era de somenos, mas tinha também as chaves de casa e o telemóvel.

 

Gonçalo Fortes