Na barriga

Foi aposta típica da idade. Eu teria talvez uns quinze e a aposta foi de vinte e cinco. Estávamos nos idos dos anos 90, por isso chamávamos-lhes contos. Cinco contos para comer um bicho da seda! Os nós da mão bateram com força na mesa, ostentando uma verdinha, e o bicho da seda lá estava, a tentar fugir. Era gordo e listado, ainda com tons também de verde, mas estes por folhas de amoreira. Não demorei muito a aceitar, por isso não teve tempo para se afastar.

Condições negociadas, estendi as duas mãos: uma, em tom de esmola, a exigir a nota. A outra, mais orgulhosa, levantou o bicho da seda acima da cabeça. Boca bem aberta, fiz batota e engoli-o inteiro, sem mastigar.

Anos mais tarde, ainda tenho pesadelos com borboletas. Começo com convulsões e tosse, retorço-me e redobro-me, até que abro a boca e saem a voar aos milhares. É conspiração preparada há muito tempo.

Até são coloridas e giras e as dores de barriga passam com Trifene, mas não sei quem é que vai limpar os casulos.

História verdadeira.

 

Gonçalo Fortes

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s