Category Archives: Teatro

Deus ex machina

Não há. Esta história é linear. E acaba aqui.

Gonçalo Fortes


Amadeus

Era uma vez um rapaz que finalmente acertou no título e agora não tem nada para escrever…

Gonçalo Fortes


Ama a Deus

Era uma vez um rapaz muito aplicado e religioso. Um rapaz que amava a Deus. Era bom aluno, escovava os dentes e rezava todos os dias. Um dia decidiu que queria ser compositor. Deus achou que isso da artes não era de boa gente e castigou-o. Surdo mas eroico (sem h e sem acento), compôs três, afinando o diapasão entre os dentes. Mas Deus não é bom perdedor e rebentou-lhe a cremalheira. Sem sorriso que atraísse rapariga, continuou a trabalhar e compôs mais quatro. Deus não gostou e ofereceu-lhe um saquinho cheio de cirrose, sífilis, hepatite, envenenamento por chumbo, sarcoidose e doença de Whipple. E ainda lhe roubou uma harpa, que havia um querubim que andava a fazer gazeta. Prestes a desligar a máquina, a enfermeira perguntou-lhe: Tu aí, rapaz da nona, como é que te chamas?

Ludwig van Beethoven, senhora.

Gonçalo Fortes


Ama, adeus!

Era uma vez um rapaz que era violado pela sua ama enquanto os pais iam ao cinema. Um dia os pais voltaram mais cedo e despediram a ama. O rapaz, com uma espécie de Síndroma de Estocolmo, foi à janela, colocou a mão no vidro embaciado e gritou cá para fora: Ama, adeus!

Gonçalo Fortes


Amman? Deus!

Era uma vez um rapaz que morava na capital da Jordânia. Uma vez saiu à rua para ir comprar rebuçados e quando deu por si estava em Israel. O  país mudou, mas o Deus era o mesmo. Os rebuçados é que sabiam um bocadinho pior…

Gonçalo Fortes


As lágrimas amargas de Penetra Von Kant

Não preguei olho a noite passada.

Horas de volteio horizontal, a insónia instalou-se de tal forma que a pálpebra aberta ganhou. E assim me deixei ficar, penumbroso animal de falcoaria.

A chuva lá fora não ajudava. Os trovões estalavam alto, como fazem todos os trovões. Estes só eram diferentes na organização. Tinham cadência, como pancadas de Molière.

De repente, senti uma dor. Quase como se um dos relâmpagos da rua tivesse entrado sem ser convidado. Um relâmpago fantasma que me atingiu em cheio no peito, atirando o meu coração para fora dali. Em teatro, o blackout é sempre o fim, e as pancadas o início. Por isso, decidi levantar-me. Petra estava na sala…

– Que estás a ler?, perguntei.

– Um dicionário. Sabias que a palavra “penetra” também é um substantivo? Significa alguém que vai sem ser convidado, sem pertencer ali.

– Não sabia. Mas faz sentido, é como o meu relâmpago fantasma. E a que propósito veio isso?

– Estava aqui a pensar nas minhas relações tripartidas, quadripartidas, confusas. E decidi dar-lhes nomes. Mas há coisas demasiado grandes para nomear. Quando o amor que se desprende nos arrebata até ao êxtase, nos deixa sem respiração, quando se quer ser feliz um com o outro, apenas aquele “um com o outro”, quando se diz “eu destruía a minha vida por ti”, que nome dar a isto? É grande, muito enorme. É um querer que é poder. É acção.

– Mas o poder corrompe, e abusa-se dele!

Os trovões faziam-se ouvir também ali, mas já fininhos… Não, não eram os trovões. Era um barulho mais ritmado, tap… tap tap… tap… tap… tap tap tap… Uma máquina de escrever, mas que escrevia também as pancadas de Molière. Fiz bem em levantar-me.

– Exacto. E foi esse abuso que se tornou cruel. Há uma submissão intrínseca que se procura, um constante topo. Através do sexo, do intelecto, do dinheiro, do estatuto… Há um amor que já não o é, que é só posse. Uma procura sádica de um masoquismo do outro. Mas isso não nos impedia, depois de atirar a loiça toda pelos ares, de abrir uma garrafa de Sekt e de nos entregarmos ternamente à cama. E não impede, ainda. Porque há mais amor por mim num dedo dele que todos os restantes dedos do mundo juntos. É por isso que ainda sou capaz de lhe dizer “Amo-te”.

– Está respondido, então. Aí tens um bom nome. Não chegaste foi a dizer-me o que te levou a ir procurar a palavra “penetra” ao dicionário.

– Ah, isso? É alguém que não pertence aqui. E isso é só o nome para tudo o resto.

O telefone toca, apesar de ser quase madrugada. Petra atende.

– Quem fala? Karin? Queridíssima Karin!… Como?… Vais voltar para o teu marido?… Karin, minha grande puta!

Gonçalo Fortes