Cherchez la femme

É a noite, percebes? É a noite que fode tudo. É aquele enquanto, enquanto não paras de pensar mas já paraste de viver. Porque quando a outra metade da cama não está vazia, não paras de viver nunca. Mas quando estendes o braço e só encontras escuridão, esta ganha formas. Infelizmente, não de mamas.

 Procuras calor e só encontras trapo, quente sem alma. Com sorte, encontras uma almofada de penas, almas de mil patos mortos, tem calor e tem forma. Mas não é fricção do corpo nem arcos de mamoplastia.

Outras vezes não estendes o braço. Esvazias a mente e esperas. Susténs o fôlego, queres aspirar um respirar, queres encontrar um suspiro alheio. E contas: 2, 2, 2, 2, 2, 2, 2… Começas a ficar azul quando te apercebes que só sabes contar até par. E em vez de aspirares, deitas tudo cá para fora. É difícil respirar em altitude, os ditosos altos fazem-te perder o sopro. Mas também não encontraste aqui nenhum, a cama está vazia, de bico a bico.

É a noite, percebes? É a noite que fode tudo. É a noite que te faz sentir só e querer ter-te aqui.

Amor é olhar para o peito de uma mulher e ver o coração. Enquanto não inventarem óculos de raios-X, fico-me pela parte de fora.

 

Gonçalo Fortes

 


Mexican-one night stand-off

Tem o seu quê de estúpido, isto de escrever na terceira pessoa e achar que ninguém acredita que aconteceu. Que se afasta do vivido, e ninguém nota o esfregar da personalidade nas letras. Algumas são mais redondas e não raspam muito. Outras, pedras-pomes da alma, biografia roubada em movimento áspero.

E por isso hoje estória fictícia na primeira pessoa. Só há verdade no eu, com toda a incerteza que esta frase tem…

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. O tecto era estranho ao olhar acabado de abrir. Esquerda direita, pisca e esfrega, onde estou?

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. Largavam perfume entre os lençóis e o tecto alheio, carrossel de noites perdidas. Perfumes diferentes, a que a personalidade dá nome de cheiro. Que também se esfrega na pedra-pomes…

Eram 3. Mas não da tarde nem da manhã. A novel estranheza do lugar faz-me querer sair, garotelho perdido em calores encontrados, à procura da corrente do ar. Corrente que liberta dali, que dá respirar.

Eram 3. Que ficaram para trás, pois nem da tarde nem manhã. Essas também ficam para trás, mas deixam sempre a certeza de novo encontro.

Já na rua, gravata no bolso, resposta à voz assertiva que diz:

Estás com a mesma roupa de ontem.

Também tu estarias, se tivesses conhecido a mulher de ontem. Ou as 3…

 

Gonçalo Fortes

 


Linha mortal 103

Agora que se sabe que o Manuel de Oliveira melhorou e quer voltar às filmagens, corre o rumor que o filme escolhido é a sequela do Flatliners.

 

Gonçalo Fortes


Not purrfect!

Depois disto:

disto:

e também disto:

é isto o melhor que conseguem arranjar?

 

Gonçalo Fortes


Lips, stick

Não conseguia dormir. Ainda se masturbou cinco vezes de seguida na esperança de desmaiar, mas em vão. Também, sempre achou que há qualquer coisa de pouco másculo em adormecer. Ficou a pensar nela…

Menina de pandeireta em banda de bar, atirava sorrisos às danças ébrias em seu redor. Machos em maioria, que as mulheres guardaram-se para o guitarrista da mesma banda. Lábios que pareciam desentupidores de canos manchados por um rosa Barbie, foi apenas quando chupava vodka ao balcão que decidiu aproximar-se dela. Femeeiro descontrolado, convenceu-se que a faria esquecer o pequeno pandeiro no bar e que aquele batom choque haveria de lhe saltar para os colarinhos. Mas acabe-se a descrição da pessoa antes da descrição do acto…

Pernas panorâmicas que se projectavam do banco dividiam a atenção com o sorriso cremalheira. Uma prateleira na qual se podiam pousar duas canecas de cerveja, mas tarde demais, era chegada a hora do copo alto. Os cubos de gelo não poderiam arrefecer aquele corpo de primeira classe. Os olhos, escondidos atrás do cabelo, escondido atrás da boina – estilo sem utilidade, o Sol ainda demorava – prometiam problemas. Quando o fixaram aprovou Nada mal!

Aproximou-se e começou a jogar. Mas as mulheres não são um jogo. Não um que se possa ganhar, pelo menos. Ela:

Tens um cigarro?

Tenho ar de quem dá à borla?

Ficou a pensar nela. E ela sim, tinha conseguido adormecer, depois de enrolar os lábios – os do batom e os outros – bem mais abaixo que os colarinhos da camisa. Taparam os buracos à vista no corpo, não conseguindo tapar aqueles que não se vêem. Esses precisam de romance, e romance não há aqui, nem resgates de vidas de percussão. É a noite fast-food, beijos estéreis e danças sem linguagem. Apesar de romântico, o amor que sentia nunca ia acima da cintura.

Reclamada a recompensa do prazer, abandonaram o corpo e o respirar, cada um para seu lado. Não querendo sossegar o fôlego, ele, clichê:

Queres um cigarro?

Tenho ar de quem fode à borla?

 

Gonçalo Fortes


Já visto

Acabo de ter um déjà vu. Pena que não tinha mamas!

 

Gonçalo Fortes

 

 


A pira de sutiãs

Nasceu nos sessentas e foi literalmente marcada pelo seu femíneo significado. Colo nos braços de sua mãe, passaram por um grupo de mulheres que protestava em torno de uma fogueira: Não somos objectos de sexo, gritavam umas, Não nos transformem em eunucos, clamavam outras.  Não se percebia bem o que queriam. Mas também, quem é que percebe?

Quando a mãe se aproximou demasiado, estalou de supetão uma faísca da fogueira. Um bocado de plástico derretido, uma presilha de roupa que atingiu Maria mesmo em cheio na testa, queimando uma cicatriz. Uma cicatriz ardente em forma de teta, que a fez chorar nesse momento e em muitos anos vindouros. Todos lhe chamavam Maria Farfalha, A Rapariga Que Sobreviveu.

Sentia-se feia e infeliz. As raparigas que a rodeavam eram bonitas e desejadas. Mas ela não. E nesses momentos, o ardor da cicatriz voltava. Com a dor e a angústia, baixava a cabeça, formando um triângulo mamário que afectava os homens em redor. Largavam tudo e corriam para ela, queriam possuí-la. Mas Maria pensava que a gozavam e fugia, sem perceber o seu papel de líder nessa revolução. Soube-o por acidente, alguns anos mais tarde. A televisão estava ligada e passava um filme de acção no qual uma mulher oferecia o seu peito a um homem, sendo rejeitada por este. Maria reconheceu-se naquele peito incomum, e assim começou o seu desafio total: livrar as mulheres do jugo d’Aquele Cujo Pénis Está Sempre Levantado!

Decidiu romper com todas as convenções de beleza feminal. Honrando a alcunha que sempre lhe deram, deixou de se depilar. Camisas aos quadrados, cabelo rapado, calças de ganga largas e botas de lenhador, saía à rua com a intenção de rebaixar egos masculinos. Assim que via um homem, assumia a sua posição de poder e fornicava com ele até à exaustão. Às vezes não dava muito jeito, porque a magia só funcionava com o queixo encostado ao pescoço. Mas assim que terminavam, libertava-o do transe, forçava-o a olhar para as suas axilas e a aperceber-se do que tinha acabado de acontecer. Com esta acção perversa, quebrou as vontades libidinosas dos homens, liderando a comunidade feminil para a sua libertação.

Mas se existe uma verdade universal é a de que os homens não conseguem manter a pilinha dentro das calcinhas durante muito tempo. E a vingança começou a ser planeada…

Envolvendo um cego, um gay e tiras depilatórias, emboscaram e capturaram Maria. Sendo o trauma mais marcado a visão da pilosidade, deram uso às tiras, julgando que isso iria deixar Maria incapaz. Mas estavam enganados e apenas a enfureceram mais, não houve epidídimo que não secasse nos meses seguintes. E foi numa dessas noites que o segredo foi descoberto. Por cansaço, o queixo de Maria deixou de tocar o pescoço por um segundo e a vítima reparou no brilho que saltava da cicatriz.

Com esta informação em sua posse, a segunda tentativa dos homens envolveu um disfuncional eréctil e um cirurgião plástico, que capturaram Maria e removeram a cicatriz da sua testa, quebrando o triângulo das elevações peitorais. Mas tal como as guerreiras Amazonas cortavam a teta esquerda para serem mais hábeis com as armas, também Maria estava destinada à glória. Destinada a consolidar o domínio feminino neste planeta.

E foi nesse momento que percebeu que o poder provinha de um outro triângulo. O triângulo do poder absoluto. Fica uns palmos mais abaixo do anterior. Avada Kedavra!

 

Gonçalo Fortes

 


Debutando

Já ando por aqui há algum tempo e sempre com uma rudeza blasé, sem me apresentar. Faço-o agora sem mais delongas, atirado na mesma num bocejo displicente: as páginas Sobre o Alfa e Sobre o Evangelho são já território marcado de facto. Procurem os pingos amarelos.

 

Gonçalo Fortes


Grão Filosofal

Desculpa, Tó, mas não é o sonho que comanda a vida. É o café!

 

Gonçalo Fortes


Atlas Shrugged

Não fora logo para casa. Telefonara a avisar já vou, mas mentira. Teria mentido ainda que houvesse alguém para atender. Mas virara por certo no sítio errado e não se corrigira no rumo. Mudar de rumo? É preciso vento. Rodeado de paredes, vento era luxo que não tinha agora. Deixou-se ir pelas ruas, um andar que mais parecia arrasto. Porque o peso existe, agarrado às correntes. E assim, cada vez menor, se dissolveu na calçada.

Não fora logo para casa. Há quem lhe chame imóveis e isso diz logo sobre o peso. Diz mais que o telefone, sem ninguém do lado de lá. Ninguém que espere, mas também ninguém que prenda. Não quer grilhões nos sonhos. São como o vento, não por serem etéreos, mas por não existirem agora. Sentia-se intratável, intolerante e intransigente. As ruas, apesar de estreitas, davam uma certa sensação de liberdade. Deixavam pensar.

Lamentou erros do passado e formulou desculpas para o presente. Correu. Não como quem foge de alguém, mas como quem persegue algo. E carregou em ombros todo o futuro…

Sustentar o globo custa. Mas a dor não dura sempre. Diminui para metade. Mais ou menos na mesma altura em que a coluna se parte!

 

Gonçalo Fortes

 


1/2 segundo

Ouviu um “SPACK” seco!

Virou-se por instinto, à procura da fonte sonora. É ressonância mórfica que vai além da espécie, a reacção. Nesses 180 graus, rotação lenta, viu a vida passar-lhe à frente:

Cresceu como criança mediana, catequese e reguadas por más notas. Não brilhou em nenhum desporto nem aprendeu ouvido musical. Em casa, gritos e brigas, dificuldades financeiras, choro e culpa. Culpa dele, por ter nascido. Passou pela adolescência tal como pela infância, invisível ao que é bom, acessível ao que é mau. Maus tratos físicos dos seus pares de género e desprezo psicológico pelo sexo contrário, também a submissão faz parte da consciência colectiva a que chamamos instinto. Autómato das 7h às 18h, amaldiçoa todas as manhãs o acordar. Acordar ao lado do já fétido hálito da única mulher que conheceu. Não escolheu, mas teve sorte! Deixou-se engordar com ela, ainda antes do terceiro filho ser parido. E esqueceu todo o passado em casa dos pais, repetindo as relações forjadas no ódio e acrescentando-lhes sofás e telenovelas. Mas também, o amor não é uma emoção. É um constructo abstracto atribuído a um imperativo biológico que não é inteiramente compreendido.

Os vícios eram literais, acepção da palavra que é defeito. Nunca tiveram prazer social e deixaram de ter sabor. Até porque o corpo se ressentiu e a ordem de proibição conjugal foi mais assertiva que a médica. Era a única vida dupla que levava, o cigarro na pausa do trabalho ou o copo de três pela manhã. Duplicidade malsucedida, sendo sempre descoberto pelas parecenças do hálito, apesar da troca de saliva já não existir há muitos anos. Um morrer lentamente que o impedia de morrer lentamente…

Por isso continua a tentar. Uma esperança de que o próximo cigarro o transforme num super-espião como nos filmes, ou um adolescente a partir o coração na rua, preparando-se para quando precisar realmente dele. E quando encurralado, responder à pergunta “Preferes uma bala na cabeça ou cinco no peito e sangrar até à morte?” com um sorriso displicente e uma outra pergunta: “São essas as minhas únicas opções?”.

Foi um “SPACK” seco a última coisa que ouviu. Não escolheu, mas teve sorte. O buraco na janela era minúsculo, uma moeda de 1 cêntimo não caberia lá. Um tiro perdido mas limpo, apenas denunciado pelo vidro que se part………………

Gonçalo Fortes


E lá no fundo, a esperança

Desconfio sempre de uma mulher com uma grande mala a tiracolo. Sinto que existe uma relação entre o tamanho da mala e a bagagem emocional. E a não ser que seja uma versão moderna do Sport Billy, substituindo as raquetes e bolas de futebol por psicopatologias e traumas emocionais, o tamanho, aqui, interessa. Curiosamente, para aquilo que ocupa espaço físico, os objectos pessoais, esta regra é ignorada. Onde quer que se esteja, seja o que for que se precise, a mala tem. Malão ou pochette, conseguem empanturrá-la com tudo e mais umas botas. Literal, às vezes! Mas anda tudo lá dentro aos trambolhões promíscuos, e o emocional e o material começam a criar ligações covalentes. A mala e o seu conteúdo começam a definir a mulher, são uma extensão dela própria. Por exemplo:

Batom Caderno Espelho Lenços Botas
A rapariga insegura  Será que estou bonita?  Não tenho nada para escrever, não sou interessante.  Porque é que nasci tão feia?  Só me apetece chorar… Aposto que não me servem.
A rapariga ambientalista  Será que foi testado em animais?  Só uso papel reciclado.  Ainda provoco um incêndio!  Lenço ranhoso: papelão ou lixo orgânico? Não uso pele de animais!
A rapariga católica  Deus me livre de usar essas coisas. A única coisa que leio é a Bíblia.  A minha alma é imortal e pertence ao Senhor. Isto é só um reflexo desfocado.  Santinho!  Que se lixe o Alcorão! São tão giras, meu Deus, que até invoquei o nome do Senhor em vão.
A rapariga feminista Não preciso dessas merdas para me sentir mulher.  É demasiado pequeno, não dá para fazer cartazes de manifestações.  Que se foda esse conceito fascista da beleza! Todas as mulheres são bonitas. Todas, ouviste?  Achas que só por ser mulher tenho de andar sempre a chorar, é?  Já disse que não preciso dessas merdas para me sentir mulher!
A rapariga obsessiva-compulsiva Será que pintei bem os lábios? Será? Será? Eu não tenho CDO eu não tenho CDO eu não tenho CDO. E CDO é OCD, mas  por ordem alfabética. Não. Não pintei bem. Está esborratado! Vou pintar tudo outra vez. Ficou mal! Vou limpar. E limpar. E limpar. E vou pintar outra vez!  Aquilo é uma mancha?
A rapariga narcisista  Fogo, sou mesmo gira! Caraças, sou mesmo gira! Uau! Gira, gira, gira! Caramba! Sou tão gira! Fogo! Caraças! Uau! Caramba! Sou cá uma gira!

Antes que isto comece a parecer um livro do Stieg Larsson ou que me acusem de machismo, afianço desde já que também não penso boas coisas de homens que usam mala. Um homem tem de ter mobilidade. Tem de estar livre para agarrar numa mulher de uma forma que a faça sentir-se mulher. Com uma mão apenas, a outra serve para lhe atirar a mala o mais longe possível.

São como que pequenas Caixas de Pandora. Só que, ao contrário da original, no fundo destas não resta a esperança. Só uns OB ou Tampax…

 

Gonçalo Fortes