Sobre o Evangelho

Começo a perceber um padrão no que escrevo. Gajas boas, sempre! Política, em dias de manifestações. Religião, quando é feriado, ou num ou outro domingo de manhã, gosto de fazer concorrência ao 70×7. E prostitutas, que são outro tipo de gajas boas, de vez em quando…

Existirão mais algumas temáticas. Porém, de todos os devaneios que por aqui passam, há um que não surgiu do que resta da minha mente. O título deste blog. Mas eu sou um rapaz sério. Sério como um ataque cardíaco. E a César o que é de César!

Porque esta é a minha homenagem e porque os créditos são devidos, aqui vos deixo a história de Crafty, o coiote, do Homem Animal e do Evangelho do Coiote. Vou tentar fazê-lo sem parecer muito geek. Mas claro que quando se é geek, não há problema nenhum em parecê-lo.

O Homem Animal (Animal Man, no original) é um super-herói do universo DC Comics, criado em Setembro de 1965 por Dave Wood e Carmine Infantino.

 

 

Bem sei que também demonstro sempre aqui uma tendência para ser um animal, mas no caso do Homem Animal a razão deste nome é outra. O nome sucede do seu poder, a capacidade de utilizar temporariamente as habilidades dos animais. Esta premissa genial fez com que tivesse direito a apenas 11 aparições durante mais de 20 anos, sendo integrado num grupo chamado literalmente Os Heróis Esquecidos.

Foi revitalizado em Agosto de 1988, pela pena do escritor escocês Grant Morrisson, vindo a ser integrado na linha adulta da editora, a Vertigo. Numa abordagem completamente diferente da típica, Morrisson humanizou a personagem, tratando questões como causas ambientais, maus-tratos e testes científicos em animais, vegetarianismo, ou a simples tentativa de afirmação como herói enquanto tem de lidar com um casamento e dois filhos ainda crianças. No número 5 da revista, chega-nos a história chamada O Evangelho do Coiote (The Coyote Gospel, no original), em que se começa a revelar esta frustração sempre subjacente à personagem, através de uma metalinguagem muito rica do escritor.

 

 

Na história surge Crafty, um coiote de aspecto humanóide, com um papiro ao pescoço. Assim que aparece é atropelado por um camião, cujo camionista deu boleia a uma rapariga que procura fama em Hollywood. A carniça fica para trás, mas começa a contradizer-se. Ossos que se fundem, pulmões que já não colapsam, sistema nervoso que recupera o uso das pernas. A descrição é gráfica e real. A dor também. Muita dor, sempre dor…

Originário de um mundo de desenhos animados onde a violência e brutalidade eram as únicas vivências, Crafty começou a interrogar-se: Os corpos que se regeneram uma e outra vez não podem servir para isto. Não podem ser para uma eterna guerra, só havendo paz entre duas explosões, no vôo de uma catapulta, durante a queda para um abismo… E decidiu procurar o seu Criador.

Ofendido com esta iniciativa, o Criador remeteu Crafty para uma segunda realidade, com carne e sangue recém forjados. Assumindo uma missão como a de Cristo, conseguiu a paz para o seu mundo, redimindo os pecados dos outros através do seu sacrifício. Mas ao contrário de Cristo, Crafty não tem o luxo da morte. Tal como Prometeu roubou o fogo aos deuses para o oferecer aos homens e foi castigado, também aqui a boa acção não passa impune. No caso de Prometeu, agrilhoado, era apenas o fígado, cirrose diária. Para Crafty, todo o corpo sofre. Mas a morte não chega nunca para limpar a dor, os deuses só se lembram que existimos quando é altura de nos castigarem.

É numa destas ressurreições que encontra o Homem Animal, a quem entrega o papiro contendo o Evangelho segundo Crafty. É também neste momento que é trespassado por uma bala de prata, a bala mágica, feita de fogo e do antigo pendente cristão do camionista, que culpa agora Crafty por todos os seus azares desde que o atropelou. Não sente dor. Pela primeira vez, não sente nada. Encontrou finalmente a paz, foi compreendido. Mas a sua história não foi, os símbolos crípticos  do papiro nada significavam…

A analogia é a de uma existência inútil e de sofrimento. A futilidade brutal que é existir, e servir apenas para divertimento dos deuses. No final, esta ideia é marcada pela imagem da mão que pinta o livro, indo culminar, 2 anos mais tarde, numa conversa entre o Homem Animal e Morrisson, o primeiro a implorar ao segundo que lhe traga a família assassinada de volta.

 

 

Fazendo uma análise como nas aulas de Língua Portuguesa, em que se caçam figuras de estilo nos Lusíadas quando na verdade o zarolho só estava a divagar, encontramos também aqui uma analogia com a frase de Plauto Homo homini lupus est, imortalizada posteriormente pelas teorias Hobbesianas (Man is man’s wolf). Hobbes defendia que o estado natural do Homem é um estado de predação dos pares. Uma constante guerra de todos contra todos, na ausência de um governo. E que é necessária uma força transcendente para mediar, um Leviatã, que é a política. Actualmente existe a versão It’s a dog eat dog world, mas os cães são para maricas, nesta toca só entram lupinos.

Para completar a trindade, e porque no final todos somos o Coiote, só falta dizer que a rapariga do camião se tornou prostituta mal chegou a Hollywood.

Claro que eu tinha sete anos e não percebi nada disto. Nessa altura, o Homem-Animal ainda era um super-herói à séria e não um gajo frustrado, como tantos outros que por aí andam.

Ahhh a ignorância da infância e a arrogância do envelhecer… Qual delas a pior? Não sei. Não me interessa.

 

Gonçalo Fortes

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