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Debutando

Já ando por aqui há algum tempo e sempre com uma rudeza blasé, sem me apresentar. Faço-o agora sem mais delongas, atirado na mesma num bocejo displicente: as páginas Sobre o Alfa e Sobre o Evangelho são já território marcado de facto. Procurem os pingos amarelos.

 

Gonçalo Fortes


Eu sou o Alfa e o Ómega

Que é como quem diz “Eu sou o princípio e o fim”, depois de Deus ter inventado a Grécia.

Gonçalo Fortes

 

 

 


Eu sou o princípio e o fim

Estamos em alturas da Kristallnacht. E já com ares de julgador de que a tabela da eterna disputa entre Judeus e Cristãos para ver quem é mais coitadinho vai pender a favor dos Judeus, José Policarpo, o cardeal patriarca de Lisboa, disse que “Hoje sinto uma perda discreta e progressiva do poder de quem nos governa(…)”.

Uma frase destas, saída do seio da Igreja Católica, dá que pensar. Primeiro, porque não é permitida a ordenação de mulheres, logo a Igreja não tem seios. Segundo, porque isto só pode representar uma quebra de fé. Quem será o poder que nos governa? Nestas coisas dos assuntos espirituais, a resposta está logo aqui, na ponta da língua: Deus Pai Todo Poderoso. Ou deverei dizer Deus Pai Discreta e Progressivamente Menos Poderoso?

Estou em crer que só pode ser este o assunto em questão. Sei que já referi isto antes, mas foi de soslaio e decidi tentar outra vez: Não me cabe na ideia, nem debaixo da batina do cardeal sequer, que se esteja a tentar um intervencionismo do Vaticano sobre o nosso Estado, laico. De laicidade, não é o marido da cadela orbital… Mas eles continuam a opinar todos os dias sobre os assuntos temporais, profetas da politeia. A arrogância é pecado, um dos sete magníficos, e no máximo já basta acharem que podem negociar feriados.

Legislar, Irmãos, só nos cânones!

Gonçalo Fortes


Casa dos Segredos de Fátima

Era a grande malha dos êxitos televisivos do Estado Novo, a seguir ao João Villaret!  Após assistirem ao telejornal e verem a Igreja a opinar sobre a melhor forma de dirigir a Pátria (Isto não se passa agora? E o Estado não é laico?), as famílias assistiam à Casa dos Segredos de Fátima. O formato é conhecido: junta-se um conjunto de pessoas dentro de uma casa. Cada uma tem um segredo. À medida que os segredos vão sendo descobertos, as pessoas vão sendo expulsas. O final do programa é sempre marcado por um trovão e por um globo de luz branca que se eleva aos ziguezagues da televisão até ao tecto da casa, indicando o final da emissão.

Fica aqui a lista de concorrentes, os respectivos segredos e classificações:

7º lugar ex aequo: Francisco e Jacinta – foram os primeiros a sair. Não foi expulsão por votação do público, foi mesmo morte pela pneumónica.

6º lugar: Maria Madalena – foi a seguir. Toda a gente sabia que ela era prostituta, não havia segredo aí.

5º lugar ex aequo: Um padre e um rabino – desistiram. Fizeram uma sociedade e enriqueceram a criar piadas começadas por “Um padre, um rabino e um (preencher aqui) entraram num bar”. Clássicos instantâneos.

4º lugar: Gajo da PIDE – Era um comunista clandestino. Não conseguiu lidar com a efemeridade da fama. Ainda autografou cassetetes durante um ano ou dois, mas caiu no esquecimento. Deprimido e sem rumo, foi visto mais tarde numa acção das FP 25 de Abril, vestindo um colete de C4. O padre e o rabino fizeram uma piada sobre isto.

3º lugar ex aequo: Lúcia e Fátima – alheias ao facto, partilhavam o mesmo segredo. Quando Lúcia o revelou, eliminou Fátima pelo caminho. Houve ainda outros segredos que não estavam em jogo e que nunca foram descobertos: por que raio é que os segredos de Fátima, assuntos espirituais, se preocupavam com a Revolução Bolchevique, assunto temporal? Estaria Deus com receio que nacionalizassem o Céu, acabando com a propriedade privada das almas penadas, e impedindo-o de o vender em lotes? E por que corisco é que as grandes previsões foram sempre reveladas depois de já terem acontecido? Excepto o primeiro segredo, mas esse não dizia nada de jeito…

2º lugar: Papa Paulo VI – afinal não gostava do Salazar e apoiava a outra margem do Ultramar.

1º lugar e grande vencedor: Salazar – por nunca se ter percebido se usou tudo isto para controlo político. Apesar da sua má relação com a Igreja, desconfio que sim. E também desconfio de outras influências: começa a ganhar muitos concursos televisivos!

Gonçalo Fortes